quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Publicação - Homem sentado - Jornal Jovem

http://www.jornaljovem.com.br/edicao20/excecao.php Link para o meu texto "Homem sentado" no Jornal Jovem.

Oficina

Ronie Von R. Martins
Tenho em mãos, nada. Nem inspiração nem verbo. Vácuo. Tenho, no entanto, a oficina, o oficio. A folha e a letra. Tenho o risco o traço. E nada basta.

Então chuto, e bato. E quebro. E rasgo.

Mordo a palavra. Arranco todos seus sentidos próprios. Todos os impróprios. É minha a oficina de quebrar palavras.

O meu verbo dança com Artaud no precipício. Com Nietzche assassino todos os monumentos de pedra paternal. Pedaços. Espaços.

Escassos todas as verdades. Não há verdade nem caminhos.

Há, sim, um descascar-se por completo. Bartleby diante do muro cego, letra não dita, não-escrita. Ainda. Longe do sentido em que pisam os pés do comum consenso. Distante da linha que abriga os ecos e restos de qualquer tradição.

Na oficina me transmuto em letra. Em pedaço de letra. Em farelo de letra. Em uma não-letra. Aquela que virá com o povo que ainda há de vir. Devir. Letra-devir.

Letra de ouvir. Letra de comer com gosto e fome. Letra de embriagar, de embebedar a carne toda. Letra-sexo, letra-cântico de sereia nua. Crua. Letra em língua de louco que profere, desfere, em reunião pagã, vocábulos de mágica herança. Profundas rezas por veredas ainda não penetradas, perpetuadas, petrificadas pelo olho tolo do interpretador geral. O olho reto e correto do resumidor, do consumidor de arestas, nuanças, pontas, frestas.

- não ao emparelhador, ao pedreiro certeiro das paredes úmidas.

- não ao verbo disciplinador do poema funcionário público.

Em minha oficina. Em minha casa de louco. Em minha folha, em meu texto torto, quebro com marreta e fúria a palavra-pedra-dura. A palavra-pele-tua. E te exponho. E me exponho ao espelho cego.



Não entendes? Pretendes?

Uma idéia clara? Uma idéia morta.

Através da garrafa plástica

Ronie Von Rosa Martins


A garrafa pet de água gelada. A travessa de xícaras e o açucareiro. Possibilidades.

A mesa azul e as cadeiras estofadas ao redor. Ao redor todo o silêncio, toda a mordaça do argumento.

E os espaços que se fazem a cada passo dos corpos que se afastam nas proximidades perdidas.

A televisão que observa o mundo através de boca escura, dentes que devoram a imaginação e a imagem em sombra que lá fica. No fundo.

Escrivaninhas que põem suas línguas-gavetas em abusadas caretas de papel e desordem. Outras tão vazias que assustam.

As janelas e seus tapa-olhos coloridos e desbotados pelo sol que agora era a lua. E além da lua minhas palavras. Verbos em cantoria ritualística. Mantra de ausência e presença. Espaços de um devir.

Meu corpo que pela janela não vai, nem salta nem morre. Porém não vive nem grita.

Na perna a corrente funcional e o número. Público serviço a que me presto. Perco-me em tão inusitado estado de apatia. Corpo variante e vago pelo limbo.

Sujeitar o pé no traço de um caminho ido e gasto. Farto.

Parto que se faz diário.

A ordem das classes predispõe noções de antigos e tradicionais regimes. Lembranças do discurso e da palavra de ordem. Imposições dos corpos. Disposições dos corpos. Enfileiramento de memórias, de sonhos, de anseios. Fila. Filamento de imaginação que se tenta domesticar. Adestradores frustrados.

O grande fracasso refletido na xícara transparente. Os discursos são facas. Cortam os comportamentos, definem os pensares. Pensar?

A água já não está tão gelada. Nada mais é tão, ou muito. Tudo é mais ou menos. Tudo é médio. Medíocre.

Será possível se viver na e só na palavra? Minha esperança. Produzir meu suor e meu prazer na palavra. Desistir do corpo escravo. A palavra não é? Minha palavra não é escrava? Do meu corpo e do que o define e circunda?

Na garrafa a água me observa. Ela é o sujeito. Eu, apenas o objeto. Inversão. O corpo abre o espaço dos braços. A mão o dos dedos. E presa esta a garrafa. Já sem a tampa despejo a água.

Água que na terra descobre sempre as melhores brechas. Não há elemento que melhor saiba descobrir seus caminhos. Poucas barreiras. A água. Pelos interstícios das coisas sempre encontra seu corpo. Seus corpos. Ou cada gota já é um corpo? Sem órgãos.

Tampo novamente a garrafa. Prendo todas frustrações. E sobre a mesa observo. O silêncio. A transparência do meu nada. Estará meu espírito na garrafa? Gênio?

Garrafa de plástico.

Ruas (1)

Ronie Martins



Um carro. Mais. Outro carro. Tantos. Pessoas várias. Uma. Duas. Todas. Rua. Uma e muitas. Intersecção. Curvas. Becos. Olhos. Dois. Diversos. Um silêncio; não. O som. O barulho, o ruído. Burburinho. Passos, pássaros? Improvável. Tolerável o contato. Corpo. Corpos. Desvios, choques. Odores. Suores. Braços. Movimentos... segmentos.


Movimento e pausa. Continuidade. Continuação. O contínuo da ação. A palavra. Na boca. Na placa. No rádio. O discurso. A intenção. A sujeição. A imposição. O vidro e o cimento. Túmulo? Da donzela? Do conto das antigas fadas?


Vitrine. Desejo e consumação. Angústia. Inveja. Prazer e frustração. Cansaços em degrade. Desilusão em várias nuance. Velocidade. Objetivo.


Chegar. Ir e chegar... se der voltar...


Voltar da rua. Dos caminhos tantos que não são nossos e também o são.


O cão que perambula. O olfato atento. O homem, o flato nauseabundo. O odor do corpo e da rua. O corpo da rua e seu odor. A dor da rua e sua náusea. O cão.


Pela mão a menina. Preso o corpo. A imaginação flutuante. Devora vitrines. Brinquedos e roupas, doces e salgados. Sonhos. Os sonhos da rua devoram-nos. Todos.


Caminhar. Uma perna após a outra. Mover todas as instancias da carne. Produzir o movimento...


Ir...


Vir...


Na rua que se perde sob os pés e cabeças e corpos e odores e presentes e dívidas e sorrisos e tristezas o pássaro voa. Distante. Há silêncio nas alturas de sua rua?


Vastas e escassas carnes desfilam seus panos. Coloridos e estigmatizados com suas grifes. Estimativas de um valor hipotético. Virtual?


Ondulantes carnes se oferecem, outras agridem, afrontam, zombam. Outras, sentadas em propícios ambientes, devoram cadáveres alegremente e bebem água, refrigerantes, café, cerveja e cachaça. Sóbrios começam a caminhada, alguns corpos... ébrios e tontos chegam... ou nunca.


A rua é língua. Lascívia. Um olho que passa encontra outro e se encontram os corpos e se aproximam as vidas e se edificam histórias e memórias e famílias e lendas e mais corpos... para a rua.






Entro no ônibus e fecho os olhos. Vou.

Um beijo

Ronie Von Rosa Martins














Responder qualquer pergunta é um martírio. As respostas sempre serão evasivas. Por mais exatas que sejam. Ilusão da pergunta. Uma pergunta jamais terá uma resposta. Sempre uma proximidade distante. Uma zona de avizinhamento, um ter a ver. Uma pergunta é feita sempre sem se esperar a resposta. A pergunta é para marcar o espaço. Para perceber o olho outro, as expressões faciais das possíveis respostas.


Uma pergunta é uma facada. Corte sem possibilidade de cicatrização. Uma pergunta é espaço vago que te come e devora em dentes, sentidos e aproximações.


- Você me ama?


Clássica. Romanesca. Fílmica. Teatral. A fatídica pergunta. Dardo exigindo um coração. Espetá-lo. Atravessá-lo.


Eis o momento da resposta. A busca das palavras. A concatenação da frase.


Amar?


O que é amar. De que forma amar? Intensidade? Não amar?


Os olhos perguntam mais que a boca. A boca exige mais que as palavras. Estas são vagas, soltas. Falta-lhes a força, a veemência.


- Você me ama?


É o silêncio dos olhos que perguntam. Exigem uma resposta além da esperança. Da suspeita.


Amar o corpo. E o calor singular da carne. Amar o toque, o contato. Amar o beijo. Amar.


O que é o amor? Amas a presença, o outro? Sendo este outro? Ou amas no outro o que este não é e desejas? Amar.


Desejas a fala e a voz e a idéia, assim como o rosto, a boca e o sexo?


Amas o outro no que este é ou no que gostarias que fosse?


O ambiente conspira contra mim. Silencioso. As paredes pesadamente respiram sua pressão, impressão sobre meu discurso. Comprimem meu verbo, ordenam a verbal construção. A flor no vaso torce o rosto e me olha. Seu perfume funesto me sufoca. O que é o amor além de um ponto de interrogação?


No peito dela. Um coração aflito já não se aguenta, e é visível o sofrimento. Os olhos umedecem. Lágrimas?


Sim. O amor também é lágrima.


O rosto é belo. O corpo. Mas o verbo? Os verbos são afins? As palavras lavram o mesmo terreno, cantam o mesmo verso, declamam o mesmo poema?


Mas... há necessidade disso? A semelhança será exigida. Sempre. Será amor? Mas e a diferença? Não?


A cantora do rádio silenciou. Também ela, curiosa, espera minha resposta. Minha palavra é silêncio. O discurso é volátil, etéreo. As palavras não dizem.


-Não me amas?


A lágrima despenca derradeira por rosto que se transforma em dor e angústia.


Como não amar? Dizer que não se ama é impossível. Declarar o não-amor é tão tolo como declarar o amor.


O problema do amor é a intensidade desejada. Sempre esperam uma intensidade maior que a que oferecemos. Quero que me ames assim... mas sendo assim não será o meu amor... será o teu. Esta é a intensidade tua, não minha.


Te amo. Mas não como precisas. Não como desejas. Amo teu nome, teu corpo. Tua presença. Amo. Mas amo as letras, os livros, as lendas, as traças. Amo a poesia, o verbo. Amo também o álcool, amo a noite. Os bares. As mulheres. Amo a insensatez do meu discurso.


Amo os cães da rua. Até as pulgas destes cães eu amo. Cada uma com seu universo puro. Seu mundo seguro.


Te amar? Por Deus... te amo como amo minha sombra ao pé. Amo como a sensação da água que molha o corpo. Amo sim. Mas não te amo.


Não te amo como a única. Não te amo como prisão nem posse. Não te amo em casa e lar e família e televisão e cama e programa de domingo. Não.


Não te amo em véu e grinalda. Não te amo em banalidades domésticas.


Sinto. Sinto.


Amo tua ausência. Amo tua imagem indo. Amo tua lágrima salgada. Amo tua dor e a minha. Amo teu nome. ..Te amo neste espaço em que não estas. Amo de tal forma teu desejo de amor que liberto-te para encontrá-lo em outro corpo, verbo e oração.


Um beijo.

domingo, 19 de setembro de 2010

MEMÓRIAS




MEMÓRIAS


Ronie Von Rosa Martins





Era linda. Mais que podia esperar ou desejar. Um problema só impedia toda a felicidade do menino. Era invisível para ela.

Incrivelmente não conseguia ser notado pelos olhos amendoados e puxadinhos da Isadora – a menina mais bonita da classe. Era o que todos os garotos da escola diziam. E ele concordava.

Nas aulas de geografia, enquanto a professora Ilma, senhora de ar grave e poucas conversas explicava sobre os rios e relevos, Ivinho só pensava na menina. Imaginação cheia de batimentos cardíacos, salivas que se desgrudavam da boca, olhos lânguidos de perdição e flutuação. Piada dos colegas.

Ivinho era desses caras que todo mundo zomba. Bom de zombar. Bom de dar cascudo. O pessoal se reunia, agarrava o coitado e toma cascudo e chute na bunda.

Ivinho era uma figura. Não chorava. Até dava uns coices. Mas era pequeno. Menor que a maioria. Mas era durão. Levava cascudo com dignidade. Olhava no olho do agressor. Davam mais cascudo. O coitado saia de cabeça quente. A gurizada não dizia. Mas saiam com os dedos esfolados também. Ninguém se entregava.

O pai do Ivinho era funcionário da prefeitura, a mãe era dona de casa. E ele, o Ivinho não era dono de nada. Pobres. Mas a turma não tinha dó. Criança é bucha, ninguém quer saber sobre a dor alheia; tudo é diversão. E a diversão é fronteiriça à crueldade.

Às vezes a gurizada atirava os cadernos do Ivinho na valeta que circundava o terreno da venda do Tião Bola murcha – O cara fizera de tudo para aparecer no Fantástico, contratara até um cinegrafista, tentara encenar lances ridículos, mas não conseguiu aparecer na TV. Pelo menos na vizinhança ficou conhecido. Pois é. A gurizada era terrível. Certa vez agarraram o coitado do menino, arrancaram os tênis – velhos e chulepentos e colocaram no vaso do banheiro feminino. Ivinho até pensou em chorar. Mão não fez. Correu até o banheiro, enfiou a mão no vaso e tirou os tênis. Uma menina que saia do banheiro fez escândalo. Lá foi o Ivinho pra secretaria. Explicação, pais, ameaças de suspensão e essas coisas.

Todos riam e troçavam. Menos Isadora. Impassível e indiferente. Ivinho não era nada. Ou melhor, era nada. Na aula, os olhos dela estavam sempre repletos de brilho e beleza. Feitiçaria que encantava e controlava os humores da mulecada. Dizem que certa vez o Índio, menino da oitava série, enfeitiçado pelos olhos da Isadora, roubou a caneta de ouro do professor Inácio Cerqueira. “Prova de amor” dizem que disse na reunião em que o expulsaram da escola.

Dizem que chorava muito. E gritava o nome da menina. Ela nem “aí”, indiferente como o tempo. ...o tempo é indiferente?

Mas não vão pensar que o Ivinho era um santinho e essas coisas. Guri criado nas agruras e diversidades que a carência engendra, sabia se vingar. E respondia à altura.

Contam que uma vez, depois daquela história dos tênis, o menino armado de um “bodoque” e uma sacola de pedras esperou o carro do pai do Ildemarzinho do Banco estacionar na frente da oficina do Seu Ícaro. Escondido nos arbustos e árvores que circundavam a oficina; arrebentou o referido carro a pedradas. Foi um inferno. Deu polícia, juizado na escola. Seu Ildemar pai, o do Banco, com grande influência tentou expulsar o guri da escola. Má influência dizia. Só que ninguém podia provar que fora ele. O danado não deixou ninguém vê-lo. Dizem que queimou o bodoque. Quando o carro da polícia chegou na sua casa, tava brincando na amoreira, boca rocha, sorriso idióta. Todo mundo sabia que fora ele. Mas como provar? Dizem que o Seu Ítalo não quis procurar a bicicleta do menino. Alegam até que o brigada achou graça e disse que era bem feito “para aquele bundinha” mas isso não se sabe nem se pode provar.

O que se sabe é que o ódio dos garotos contra o Ivinho aumentou consideravelmente. Mas o guri era bom estudante. Coisa que a maioria não era. Os anos passaram. Tudo mudou, alguns de nós foram embora, outros o tempo comeu, a Isadora casou com o Ildemarzinho, embarangou e agora é traída sistemáticamente pelo cara. Ela nem liga. Tem casa grande, carro na garagem, cartão de crédito, roupas bonitas e festa para ir. Não tem muitos amigos. Ela nem liga.

Eu sou professor na escola em que o Ivinho estudou. Ele se formou, fez faculdade, mestrado, doutorado, dizem que está na Europa, que manda dinheiro para os pais. Casou com uma loira fenomenal. Professora de Linguística da Universidade de São Paulo. Ivinho escreve livros, artigos e qualquer coisa que se use letras. É famoso. Conceituado. Às vezes vem visitar os pais. Carrão, bem vestido, cheio da grana. Mas não é esnobe. Pelo contrário, nos olhos trás alguma coisa de simpatia para com a cidade e as pessoas daqui.

As pessoas daqui não gostam do Ivinho. Fazem cara de nojo e essas coisas de gente despeitada. Ele não liga. Gosta da gente.

Na época de guri eu queria ser amigo dele. Mas não tive coragem. Queria ajudar. Mas era muito covarde. Quando dava o meu cascudo na cabeça dele, não forçava. Só fazia cena. Acho que ele percebia.

Na verdade eu simpatizava muito com o cara. Esse texto é uma espécie de desabafo e um pedido de desculpas.

O Ivinho não era o Ivinho, era outro, e nenhum dos nomes corresponde à realidade – se é que podemos definir o real – respeito ao pessoal.

Estes dias encontrei em um açougue no centro da cidade o Ivanir Marreta, tinha uma mão enorme, quebarava tijolo a soco. Era o mais temido de todos, e o que mais judiava do Ivinho.

Conversando sobre o passado ele me saiu com esta:

“..e tu lembra do Ivinho, o baixinho? Sabe que eu até gostava do guri!”

DESMORONOU O CÉU E ELE RIU

DESMOROU O CÉU E ELE RIU


Ronie Von Rosa Martins





Desmoronou o céu e ele riu. Bocas graves e troantes anunciaram a água. Abundancia. Jorros, fluxos, rios. Massa de água que tudo envolvia, cobria, lavava. Todos os demônios escorraçados. Santa a água. Benta. E os braços aos céus agradeciam. Costumava agradecer. Mesmo constituindo-se da mais irremediável revolta; não esquecia de agradecer. O dia, a noite, a vida. Às vezes até as dores e fúrias.

E hoje estava ali. Rua deserta de corpos que não ficavam. Corpos que não aceitavam a água. Refugiados. Filhos dos lugares secos. Enxutos. Seguros. No entanto ele como sempre se recusava a aceitar os refúgios. Alguns achavam que era doente. “Louco” declaravam. “Da Silva”, complementavam os mais velhos. As crianças riam e às vezes até judiavam. Pedras, paus, e palavras mais agudas e pesadas-cortantes verbos infantes, carregados dos preconceitos dos pais. Estes puxavam as crianças para dentro das casas secas. Enxutos.

Mas ele estava molhado. Sempre vazando sua liquidez irracional. Suas inconveniências sociais. Insistia em colocar o espaço do seu corpo no espaço dos outros corpos normais. E causava com isso embaraços nada agradáveis para a cidade.

Neste dia, munido do discurso da des-razão, Braulino Junqueira resolveu declamar sua revolta em forma de dança. O corpo no movimento da dor e da ausência de voz. Da voz que se ouve e encanta, e escuta e acata e entende e aceita. Braulino não tinha voz. Sua gramática era motivo de riso e escárnio. A voz de Braulino não era ouvida. Renegada. Excluída. E seus murmúrios ancestrais, que das profundezas mais antigas de todos os ecos pretendiam a comunicação. Relação. Comunhão. Mas a sacra língua oficial, o politicamente correto-escorreito idioma-senhor-patrão-discursocial-grafia-fala, padrão, modelo em zombaria afinada-refinado desdém, reduzia a expressão de Braulino em cômica e ridícula piada.



Mas ele.Braulino Junqueira não era piada. A seriedade abissal. Corpo e som provenientes de espaços ainda não arrazoados pela prosaica sanidade de qualquer daqueles homens enxutos.

E enquanto a chuva varria o mundo com sua água. Purificação? Batismo? O corpo de Braulino, como que movido pelo ritmo do berro de mil gargantas consumia os espaços em movimentos bruscos e estranhamente assustadores.

Verbo que se fazia corpo. Corpo que se fazia verbo em músculo e torção, distorção, contorção de toda verdade posta-imposta-proposta. E o corpo era o discurso. No percurso da própria dor do músculo. Do impulso do grito do nervo e sua distensão. Mão em cinco dedos profundos, mago em ritual soturno. Poeta em carne e osso e pele. Poema de corpo e face. Rosto que se desfaz. Criação de outros tantos. Máscaras todas da possibilidade da face. E o rio que se despeja. E o afogamento. Naufrágio de toda constituição do sujeito. Sujeito explodindo-implodindo toda ilusão do corpo e da mente. Toda a ilusão do Ser homem. Dança-balé. Delírio da carne. Sexo explícito entre o sentido e a imagem. Imagem e vocábulo não dito. Maldito espetáculo de redução e aumento do corpo, envergaduras, alcances e dobramentos. Plástica magia de corpos que transitam no mesmo corpo. Desorganização, desorientação.

E no barro que a água apaga, círculos, riscos, vocábulos. Grafia dos abismos que assombram todos os homens, todos os corpos, todas as carnes que se compõem.

Largos passos. Piruetas tresloucadas. Agachamentos, tombos, mergulhos, gritos. Uivos. Raios elétricos, epiléticos, dialéticos.

E o mundo fechou-se em obscuridade. Todos os olhos recusaram. A grande recusa. E os teatros todas as portas cerraram. E apedrejaram e acusaram. Não mais a chuva. Impropérios e injúrias. Fúria em ancestrais conjunturas. Medo em tijolo e massa. Estruturas de reclusão, afastamento. Exclusão, expurgo. Enxotar o louco e sua dança. Seu rito e seu verbo. Sua imoralidade corporal sua carne, face e presença. Apagar a loucura. O corpo e a escritura.

Queimem a criatura da chuva! Gritavam todos os enxutos. E em deliberado movimento de linchamento, todos os braços, todas as mão e todos os olhos o corpo do louco abraçaram. Preção violência e raiva.

E na chuva que esmorecia, em óleo e fogo que se fazia, o corpo de Braulino Junqueira ardia.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Gato e rato


Ronie Von Rosa Martins





O gato perseguia o rato. Sempre. Corrida de obstáculos em que o rato sempre vencia. Buracos, esquinas, saltos, agachamentos. A frustração do felino. O rosto achatado na parede. O martelo insensível na cabeça. A língua em chamas. A risada que não saia. A mãe que chorava. O rato não vencia sempre não. Encolhido ao pé da cama observava o caminhar trôpego do homem. O pai. O poder. No chão. Esmurrada. Surrada. Os soluços da mãe. O olho do homem no seu olho. Do rato. Gato e rato. O que fazer? Enfrentar o gato? Se oferecer à devoração do gato. A trilha sonora. Alegre, rápida. O denso silêncio. Espesso. Na mão do homem a garrafa. Na mão do homem o punho cerrado. A ofensa na boca. Em cuspe e fel. Em raiva milenar. Em ignorância secular. Impunidade atestada. “E você. Vai fazer o quê?” O gato perguntava em deboche de voz. “Não é homem?” e o rato via o homem e achava que não queria ser homem. Ser homem era aquilo? “Não é homem seu rato!” gritava em saliva e cachaça que expelia em boca que mordia e consumia tudo que era bom. Ser rato era melhor que ser homem. Fugir para a toca. Esconder-se do gato. Recusar o homem. Recusar ser homem. A mãe gemia. E o gato chutou-lhe a barriga. A violência era desmistificada. Pura. Cambaleou o gato. Sentou-se na cama. Sem fôlego. Correra muito para alcançar o rato. Os ratos. Eram todos ratos. A culpa era deles. A vida era uma merda porque eles não ajudavam. Não faziam a parte deles. Era tudo com ele. “Eu faço a minha parte... eu faço...” olhava para o corpo da mulher no chão. “Tu... tu não faz a tua...” apontava um dedo que era um gargalo para o menino e gritava: “Nem tu... ratinho... infeliz ratinho... nem tu faz a tua...”

Do que falava o gato. Pensava o garoto.

“São um atraso.” Continuava o pai. “Um atraso pra minha vida.” Levantou-se mas caiu ajoelhado sobre o corpo da mulher. Gritou no ouvido que já não ouvia. “Vaca!” e riu.

A risada assustava muito o menino. Risada cheia de fantasmas seculares, fantasmas que provinham da garrafa que dançava na mão do homem-gato-pai. O ratinho correu. Pela porta. “Vai seu merdinha... vai pro buraco... vai pra toca...” e ria e chorava. E soluçava o gato. O homem. O fantasma.

Agora tentava acordar a mulher. Empurrava o corpo de um lado para o outro. “Acorda sua vaca, não finge... eu sei que estás aí...” E então parou. A garrafa liberta pela mão tombou primeiro. O sangue da garrafa escorrendo ao lado da mulher. Os olhos esbugalhados. Fora surpreendido pelo rato. Pelo martelo. Seu próprio martelo. Tentou levantar. A embriaguez e o peso da cabeça não permitiram, tombou. Uma. Duas. Três vezes. A mão na cabeça constatava o sangramento. O braço estendido. “Ajuda...” os olhos do ratinho grandes e apavorados. Corpo estático. Tombou.

A criança caminhou até a tv e apertou o botão. Fim.

NA BORDA

Ronie Von Rosa Martins


Depois de ralar o joelho no muro e por fim em pé na borda, equilibrando o pequeno corpo entre o cair e não; de braços abertos respirando fundo, teve a primeira visão do mundo além dos limites do pátio.



E os olhos-brilhando luz e festa e medo, puderam ver. O depois. O depois de tudo que até agora não podia. O muro era alto. E uma brisa gelada e arrepiante o deixava vibrante, corpo em êxtase.



Era o momento em que os pais não estavam. Mãe na escola e pai na fábrica. E ele ali.

Senhor do muro. Dono da amplidão da imagem. Senhor do que cabia em seu olho. Olho devorador de sonhos e imagens. Olho que consumia casas, ruas, distantes árvores. Olho que ouvia. Olho que falava. Era só olhos. Uma visão que se expandia, dilatava para todos os lados e direções. Já não havia um corpo. Agora era só o ver. Empanturrar-se com as cores, os movimentos, os barulhos e delirar com as possibilidades do além muro.



O joelho doía. Mas não importava. Era o sacrifício. Era a paga. O sangue, o esforço. Nenhuma vitória deveria ser fácil. Todos deveriam ralar o joelho, esfolar as mãos no esforço de galgar outros espaços, outras visões.



“Não saia, dizia o pai. É perigoso, dizia a mãe.” E ele obedecia. Sempre obedecia. Era obediente. Bom filho. Mas estava cansado. Sua visão era resumida, determinada pelo muro. Alto muro que protegia tudo e todos. Amigo?



“Pra que tão alto mãe?” “Proteção meu filho, proteção...” E afagava satisfeita a cabeça do menino. A bola que chutava nas paredes já perdera a graça. Movimento espelhado de ir e vir. Reflexo. Os brinquedos... sua imaginação já não suportava mais brincar de carrinhos. Estradinhas e essas coisas. Caminhos exatos. Chutou os brinquedos. Dentro da casa a tia. Senhora idosa e obesa. Rosto vermelho cabelos fartos e risada gostosa. Mas agora dormia. Ela sempre dormia. Adorava televisão – para dormir. Hipnose. Era apertar o botão e em seguida ouvia-se o ronco. Foi quando ouviu o ronco que saltou no muro e ralou o joelho.



Tinha oito anos. Agora tinha quarenta e dois. E de braços abertos respirava o mundo. Profundamente.



Ainda morava na mesma casa. Herança. A mulher não gostava. Ele também não. Mas adorava a borda daquele muro alto. Os filhos achavam engraçado. Os vizinhos também. A mulher já se acostumara. Excêntrico, maluco... Mas ele não ligava. Podia chover cair raio e coisa e tal. E lá ia ele, sempre, todos os dias. Subia no muro, abria os braços e respirava. Respirava tudo e todos. Depois caia dentro do trabalho. Dedos vibrantes, olhos que faiscavam letras, frases, idéias, conceitos, contos, artigos, livros, resenhas, escrevia o mundo. Mas não o mundo exato. Criava o mundo. Criava. Era senhor do muro. E da borda estava em contato com os fluxos e energias, e re-criava. E era muito bom.



Um dia um dos filhos perguntou “Pra que tão alto pai?” e ele disse “Pra poder voar.”

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Outro lado


OUTRO LADO
Ronie Von Rosa Martins



Estavam todos. Como o dele. Ali. Pendurados-encravados-talhados na parede. Mesmos e iguais de olhos bocas e sorrisos tantos.

Tolas. E sorriam com dentes de argila e cimento. O sorriso coletivo pedia o dele. Ali também. Troféu.

E a parede ofegava. Arfava de emoção que estava e era.

Comer com dentes a carne singular e defecar pelos poros de sua instancia o rosto reconduzido, reformado. Emoldurado no senso; comum a todos.

Alisas todas as arestas. Moldado rosto. Formatado rosto. A cara de todos um.

E era o muro. E apertava a carne. Prosaica serpente. Muro. Murro na cara. Várias, tantos quanto necessário ao processo de docilização-domesticação-castração.

E eram as bocas todas que cantarolavam inocentes pequenos versos morais. Entre tremores labiais. A conformação do riso. Deterioração do ser riso.

Comprometidas visões. Parciais. Caricaturais.

Subtrair a carne. Arrancar o rosto. A cara. Do muro. Em urro em berro em dor. Subtrair o corpo da clausura. Furo, brecha, rachadura, fissura, fenda. Senda de possibilidades todas.

Diferença. Além da crença do rito do grito.

Pela fresta, buraco, vago, espaço da cabeça que não está. Esbraveja a criatura-muro, o poder se esvaindo no espaço que abraça o além do amém. Amem a segurança da pedra! Vocifera a fera. Amem o abraço da pedra. O afago da pedra. O carinho da pedra. Voltem pra caverna! Esconjurem Platão e toda ilusão!

Mas o corpo-carne-cara dele em pés e braços e pernas tantas e todas; novo corpo desgovernável parido pelo espaço que se produz na rua ganha todos os passos.

Impura rua além do muro. A antítese do muro corre, foge e luta. Em marcha que se distende, corpo que se pretende-lágrima que se desprende.

Mas eis que das outras caras todas. Seguras na estrutura ecoam. Profundas canções. Graves acusações.

“Tu! Tu! E salivavam conformidades ofendidas, seguranças ameaçadas. Cuspe. Argilosa baba.

“Tu! Tu! Móbil criatura. Nua criatura. Carne pura! Morre! No gesso do meu catarro!

Morre em estátua crua!

Morre em estátua crua!!

Te junta. Dissolve. Transforma. Volte ao barro-greda-argila-cimento-grade. Abandona a carne. Abraça a fome do muro. Ouve o murmúrio. Ouve o murmúrio!!! O murmúrio do tijolo. Ouça a sinfonia, o encanto, a poesia... O discurso do muro!

A antítese resiste. Osso-pele-poro-suor e dor. Solto. Salta, pula e escolhe a fresta-frincha espaço e mergulha. Agulha que trespassa. Trapaça a tessitura do muro. Agulha sem linha – só a de fuga.

MEU NOME É LEGIÃO na Revista Arte Institucional

Publicações...

terça-feira, 13 de abril de 2010

MEU NOME É LEGIÃO

MEU NOME É LEGIÃO
Ronie Von Rosa Martins



Em nosso pacto de União, combinamos todos de pelo menos na hora da morte estarmos juntos.

Levantamos todos no mesmo instante, as mazelas da anterioridade ainda fermentando suas significações precárias em nossos cérebros e sentidos. O tempo. Sabemos, todos, que nossa fragmentação mesmo que dolorida é necessária... mais que necessária, é exigida. E mesmo que saibamos da descontrução que se opera em nosso eu, nos olhamos nos espelho. Reflexos vários. Cada um vê seu próprio rosto. Próprio? Rosto?

Na dúvida de “tão vasta questão existencial” vestimos nossas outras peles; ele beija a mulher, é o bom marido, o outro corre pro trabalho, dedicado, exato, já aquele blasfema contra o mundo. Este, cínico, prefere simplesmente continuar, e de vez em quando sorrir envenenado para o cotidiano. Ligado está a sua corrente, “elástico” que estica lhe prometendo espaços ainda não alcançados mas que num único puxão o resume ao que é continuamente...

Abrimos os olhos. Todos. E nos permitimos invadir pelo imediatismo mundo da imagem. Todas as idéias-imagens se resumem a um apelo de consumo. E já nos vemos, sonâmbulos, zumbis dessa pretensa pós-modernidade. Este é seduzido pelo carro, o outro pelo livro, este outro pela mulher, linda, maravilhosa, artificial e provocante que lhe sorri eternamente no comercial... Mas devemos correr. Todos devemos correr. O tempo é uma concessão humilhante, e devemos nele, em detrimento do espírito, do corpo e do prazer, produzir o sentido para nossa existência. Produzir!!!!!

Produzir nosso outro corpo, nosso novo prazer, representar nosso espírito. Verdades? Nossos conceitos, engendrar nosso pasto diário... a ruminação nossa de cada dia...

Mas as vezes paramos. Traumaticamente. O fluxo normal da contemporaneidade não nos permite muita reflexão, é na ação que se desenvolve o combustível contemporâneo. Mesmo assim paramos...

Paramos quando percebemos que apesar dessa imensa fragmentação de eus a que somos obrigados, ainda continuamos suscetíveis e manipuláveis a um único discurso. Percepção. E nos abraçamos todos, todos os eus de nós mesmo. A multiplural criatura humana. Todos cansados, nos esgueiramos pelas frinchas do tempo, e nos vamos constituindo em um. Se isso ainda fosse possível... Frankenstein pós-moderno...

Deitamos então, um após outro, corpo sobre corpo, alma sobre alma. Conceito sobre conceito, e nos vamos reconstruindo, erigindo, à margem da fera que nos oprime, pela última vez o que, (talvez) fôssemos. E neste limbo, espaço efêmero onde o eu se encontra com seu próprio eu, nos permitamos à memória da lágrima, secas estão todas as reservas reais de água em nossos corpos-desertos... Talvez um sorriso cínico, e unidos definitivamente cancelamos a Produção. Neste instante nos permitimos a retenção, mesmo que fugaz da mais-valia. Resposta ousada e temerária ao grande Discurso.

E se alguém nos perguntasse, segundos antes da última reconstituição do ser, quem éramos? Cínicos, ainda, diríamos: Meu nome é legião, porque somos muitos...

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O Homem Sentado




O HOMEM SENTADO
Ronie Von Martins


Engolia todas as dores. E já se acostumara. Não havia dor que não estivesse acostumado a engolir. Todas. Friamente às engolia. Às vezes mastigava-as. Lentamente. Tudo ao seu redor era lento. Denso. Tudo era denso. Densidades estratificantes que lhe cobriam, envolviam em camadas. Como uma cebola. Não comia cebolas.

Os movimentos eram raros, da cama ao assento frente a parede que não se abria em janela, mas que se fechava em parede. E mesmo assim, seus olhos paravam ali. No espaço que só o olho do homem sentado conseguia ver. Ver? Seria uma frincha? Existiria a possibilidade de o olho buscar e se esgueirar pelos interstícios invisíveis e “impossíveis” da parede?

Comia dores e bebia chimarrão. Amargo e quente. E não escuta o rádio. Mas sempre ligava o aparelho. Uma estação além das vozes chiava dialetos singulares e vetustos. E seus olhos por breves instantes pareciam brilhar.

O tempo era impreciso, já não era possível determinar se era presa de Kronos ou Aion, ou se decidira deixar o corpo para um e o resto para o outro. Mas parecia que já havia preenchido seu quinhão de real com várias toneladas de memória e delírio.

Pelo substantivo louco, era definido pela família. Nunca apareciam, mas pagavam uma funcionária para limpara o pequeno apartamento. Ela chegava lépida, faceira, pequenas e infames piadinhas nos lábios, barriga volumosa e satisfeita, espantando fantasmas e poeira com seu espanador encantado.

Ele ordenava a sua máscara que forçasse um sorriso. Cordialidade. E o que saia era uma careta engraçada que fazia a mulher sorrir e dizer mais besteiras.

A funcionária era um vento. E soprava com força todo o silêncio e a solidão do espaço do homem, mas quando saia, a gravidade puxava-os para baixo. E ele realmente não sabia se gostava do agora ou do antes.

“O que estás vendo?” às vezes a mulher perguntava e ele respondia que via a cidade da memória. E ela ria. Aquecia mais água para a térmica, perguntava se ele não queria trocar a erva. “Uma carteira de cigarro” ele dizia, mais que pedia. “Eles disseram que você não pode fumar” e ele sorria. E ela trazia a carteira e ele incendiava o lugar. O fósforo incandescente por segundos frente aos olhos e em seguida a fumaça se esvaindo e abraçando o ar em valsa erótica. Lascívia. “Eles se amam.” Ele dizia. “Quem?” perguntava a mulher. “A fumaça e o ar.” A gargalhada era dela, o silêncio dele. “Você é esquisito mesmo, hein?” “É.”, dizia o verbo pensando na conjunção “e”. Este era o problema. A finitude das coisas e de si mesmo começavam a lhe causar estranhamentos. Gostaria de se ligar a outra oração, acrescentar eternamente. O meio das coisas. O verbo ser. A palavra “é” definia, estagnava e prendia tudo que não deveria ser nas estruturas sedimentares do “é”. O ser.

Ria desta suposta unidade. E se esvaia em fumaça. E dissolvido em nevoa, qual vampiro, perdia-se inteiramente pelas frestas do seu corpo real e organizado.

Revista Partes: O homem sentado

Nova publicação de um dos meus textos.
"O homem sentado" acaba de ser publicado na REVISTA PARTES!!
confira:
http://www.partes.com.br/contos/homemsentado.asp

sexta-feira, 26 de março de 2010

Um branco


UM BRANCO

Ronie Von Rosa Martins





Pasma

A caneta afasta o bico

do papel.

E a folha que se faz deserta

Faz-se falha.

A mão

Que o objeto prende

Na sua ânsia treme.

Angústia de não ser falha

E na folha cicatrizar o verbo

A beleza da nossa fala.



Silêncio!!!



Descansa lívida e pálida a folha enorme!

Treme a mão e a caneta dorme.

Neste momento;

Neste tormento que o ponteiro mostra.



E o grito e a noite...

E os passos que distante vão?



Minha mão repleta

De um profundo não.



domingo, 21 de março de 2010

Moby


MOBY


Ronie Von Rosa Martins





Abriu um olho-claridade, brilho, luz-piscou uma, duas-três, várias vezes ligou e desligou o mundo. O outro.

Aberta as janelas, fronteiras entre o sono e o despertar, talvez entre a morte e a vida, pensou... (ultimamente pensava demais.)

Precisava levantar- “levanta filho da puta, levanta vagabundo.” – ouvia os quase inaudíveis insultos que o cérebro – entidade funcionário público – gritava. O corpanzil velho gordo e suado lascivamente afundado qual Titanic ou Pequod em um mar de cobertas também velhas e também suadas.

Girou os olhos pelo quarto, como fazia sempre; examinava o local-cela-quarto-prisão... grades?

No chão entreaberto... Moby Dick – sonhara estar preso no mortal arpão de Ahab;

Baleia, Moby como era chamado – a baleia era branca; ele era a própria noite. ...o zunido... Sempre o zunido daquela miserável... Um dia a pegaria.

Barulho lá fora. Valia a pena sair? Na superfície o Pequod o espreitava. Sentia o seu suor, seu odor de negro fujão; de escravo. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, quis cuspir no chão. Achou melhor não. Dane-se o Pessoa. Tão louco que seu duplo era dobrado. Louco de merda. “Pelo menos eu sei quem sou, sei o que faço: Eu sou........... faço.........”

Bobagens. A sombra do Pequod estava quase sobre ele. Piscou os olhos. Mergulhar mais fundo. O mar era seu território, seu universo.

A mulher gritava para que não esquecesse a chave... “A chave! A chave!” e ele em desespero se apalpava. Bolsos do casaco, da camisa, da calça... “A chave! A chave!” “Levante, levante” implorava o cérebro; mas o corpanzil sorria constrangido na sua incapacidade de produzir ação. “Desculpe... respondiam todos os músculos, todos os nervos-neurônios–veias tudo. Todo o organismo em sussurro, depois lamentos depois em berros gritavam-berravam-ganiam-gemiam-murmuravam.

Procurou pelo quarto – sempre o silêncio, abraço profundo; forte e sufocante como o da mãe “Não vá se sujar meu filho... não vá se sujar meu filho...” o perfume adocicado e enjoativo lhe invadindo as narinas e nauseando-o. A tentativa desesperada de fugir dos tentáculos maternos... “Não vá se sujar meu filho...”

Fuga!

Rua!

Corria livre o sorriso fácil riscado na face gordinha e rosada. “Brincar, brincar, brincar” lhe ordenava a alma infantil, e era a mesma alminha que se encolhia tal qual o corpo, assustado e humilhado quando os meninos da vizinhança o colocavam na roda e o chamavam de baleia, “Moby Dick!”, Moby Dick!”

Chorar?

Não. Quando o pai lhe encontrava chorando batia com violência no seu rosto “Home não chora bundão! Home não chora!” E ele, a baleia, engolia as golfadas de lágrimas em proporções desumanas.

Na escola era o centro das atenções; as meninas riam e chamavam-no de Bolo fofo, A baleia sempre fugindo das ameaças. Fundo mergulhava.

E o pai?

Ausência presente. Presente indiferença. Vazio. Poltrona vazia, garrafa vazia. Uma lembrança... Vaga lembrança...

A mãe?

O abraço tentacular tão indiferente quanto à indiferença paterna “não vá se sujar meu filho, não vá.....”

O arpão rasgando o mar. As lágrimas, as lembranças... Ahab. Vários Ahabs insanos em seu encalço.

Afundar...afundar. Cada vez mais afundar.

A mãe-perfume

Perfume-amante.

Chances de amor?

Sim, tivera a chance de ser normal. ( O que é ser normal?) Ela até que gostava do cetáceo, mas não tinha condições de suportar a pilhéria da marujada: “Não dá mais Moby, não dá mais.” “Por que fulana... por quê?

Por quê?

O coro da turba surgia em uníssono vociferando: “Gordo, Gordo!”

Nos ouvidos as mãos, tampões exatos na exatidão da dor.

Chorar?

Não, Moby jamais chorava – o pai não deixava – Moby só mergulhava. Sempre o mergulho. Fugia incessante do arpão, para o arpão...

Ar...

Pra que serve o ar se há a imensa e delirante dor; pra que ar se o arpão da infelicidade lhe atravessa as costas numa gargalhada horrenda.

A cama-mar- acamar- acalmar...

Dor!Dor!Dor!

Ardor e febre. Suor. O corpo se despede enorme. Abandono. Imensa nódoa escarlate que tinge a água e sufoca até Ahab.

Os olhos – longe a baleia, na superfície arrasta para o inferno o navio, a fúria e a intolerância.

Então chegaram calmos, quase sorriam – os carcereiros-enfermeiros-amigos-sombras-marujos...sonhos.

“O gordo foi pro saco.”

“É”

“Pois é.”

O cérebro ativa a última luz...

“Suicídio?”

“Desde que nasceu.” Sorriu o outro.

“É.”

Parados e abertos os olhos. A visão.

Ahab. Dentes arreganhados, toda a tripulação, todos os meninos, a mãe, o pai, a amante – o arpão.

O corpo. Corpanzil de graxa, baleia imensa negra-branco cetáceo. Morte.

Morte?

Sim, por que não, só mais um grande mergulho...

“Ta morto mesmo?”

“Não sei...”

O salto. O berro!

Joga-se! A gordura imensa o peso intenso sobre os olhos claros os olhos parvos, o pânico definido pela indefinível morte.

Sufocados-esmagados-triturados...

Apagada a fornalha fecha-se o livro os olhos fecham.

Mais um mergulho.

Encontrariam no outro dia dois enfermeiros esmagados pelo paciente do quarto 56.

A vida... e a morte também podem ser ridículas.

Não havia nenhum Ismael para escapar ao naufrágio.









Levantando

Levantando


Ronie Von Martins













Primeiro deveria me preocupar com o narrador. Escolher quem narra. A forma como se conta um fato. Isso tudo é muito importante. Mas pro diabo, o narrador sou eu mesmo. E olhem lá, não sou nenhum eu “poético”, sou apenas eu. Isso basta.

Poderia também, dos vários fatos importantes da minha vida, eleger um que tenha sido significativo, que tenha representado alguma coisa pra mim ou para alguém. Pro diabo também, minha vida não passa de ume grande mero. E vejam que esse mero que seria um simplório de um adjetivo eu o substantivo, solidifico em coisa vasta, maior do que a proporção que realmente possui. Se é que alguém consegue possuir o nada. É o contrário, penso eu, é este grande abstrato infernal que nos possui. Jonas na bocarra da baleia. A grande baleia é o nada. Eu sou Jonas. Não!!! Esse não é o meu nome, pelo amor de Deus, eu sou Eu, e maiúsculo por uma questão de egocentrismo, dada a insignificância que represento entre esse E e esse U final.

É isso aí, para aqueles que já perceberam o meu desatinado esforço em ser irônico, minhas mais sinceras desculpas, mesmo que não deposite muita fé em desculpas, visto sua função meramente ritual diante do fato já consumado. Sou, digamos um aprendiz de aprendiz, e me regozijo diante das sentenças que vou amontoando. Sou deus, e com minúsculas, para não ofender àqueles que se debruçam sobre as nuvens e sorriem da minha ousadia. Ousadia??? Que sofrível...

Ah, claro, não devo esquecer do título, Levantando, o gerúndio (isso foi antes dessa onda de gerundismo que tomou conta do mundo como uma praga) me fascina, é como se estivéssemos sempre agindo, é como se fôssemos eternos, e o pretérito e o futuro estivessem longe de colocarem suas garras – é, garras ficou muito vulgar e chavão, mas somos todos um pouco vulgares, e o que somos além de chavões humanos – vai garra mesmo. Isso, longe de colocarem suas garras ( só não vou dizer afiadas, isso já é apelação) na carne de que somos feitos.

Levantando. Muito bem, deste ponto pretendo ser mais sério, e me arriscar pelos caminhos sinuosos – e caudalosos – de um psicologismo barato. Tão caro pra mim.

[Intenso silêncio, um leve coçar de saco, tentativas infrutíferas de encontrar uma citação fascinante, mais uma coçada no saco... um estalar de dedos, uma total falta do que dizer, um cérebro oco, vazio. Muito vazio mesmo!]

É, Levantando...

Da cadeira, da idéia, do texto... levantando.











quinta-feira, 10 de junho de 2004

Haiti

HAITI


Ronie Von Rosa Martins





O movimento estava nos olhos. E no dedo. O dedo da mão direita. E o mundo era sobre ele. Com o peso todo. E os olhos vivos. Procurando, buscando. E o cérebro.

Pequeno. Correndo nas ruas. Os amigos juntos. Muita alegria e gritos. Uma bola toda enrolada, chutes para todo o lado. Brincadeiras... Mas agora não dava. Muito peso. E sufocava.

Quando corria muito sentia dor no peito. Tinha que parar, respirar. Mas agora tava difícil. O buraco era pequeno.

Tentava sorrir. Lembrava do gol. Do prazer do chute. Do movimento dos músculos da perna. O retesar, a explosão de força e vigor. Golaço. Bola no ângulo, goleiro estendido. Braços em movimento livre pra cima e para baixo. O grito de gol eclodindo... mas agora não havia gol.

O pescoço doía. Não sentia as pernas. Só os olhos estavam livres. Soltos. Podiam dentro do raio de visão que a cabeça permitia; observar tudo. E nada podiam fazer.

Tentava afastar a lembrança dos rostos. Defesa. Sobrevivência.

Tinha que ser mais forte. Sempre mais forte. Viver. Era isso que tinha que pensar. Mas doía muito.

E os outros? Ouvia rumores. Os ouvidos abalados. Mas ainda ouvia os sons da superfície. Gritara bastante. Ninguém ouvira. Será que morrer era assim?

A luz vinha de um espaço que se abria minúsculo perto do seu pé. Quando fazia sol um facho de luz forte e vibrante incendiava o escuro túmulo onde se encontrava.

E sorria. Nervoso. Fome. Tinha muito. A barriga roncava incessante. Mas era a sede que o enlouquecia. Os lábios secos já começavam a se partir. Rachar. Doíam... e sangravam. E ele bebia o próprio sangue. Um devorar-se aos pouquinhos.

Pensava que era extremamente doloroso estar ciente do próprio definhar do corpo. Queria desmaiar. Fechar os olhos. Mas ai vinha a fúria de viver. Tinha que viver! Tinha. Devia. Resistir ao peso. Resistir.

A vida inteira havia resistido.

O corpo ossudo e magro parecia ser feito de ferro. Agüentara privações que só quem já abraçara a miséria absoluta sabiam. E não havia conforto. Não havia lembranças boas para se agarrar. Pessoas para voltar. Havia um corpo de ferro que se recusava morrer. Só. E mesmo a vida sendo uma merda, era a vida do corpo. A vida que lhe fora dada. E era dele. E era ele que diria que decidiria a hora. E o rato o olhou de longe. Cheirou. E os olhos dele se fecharam. Seria agora. Sentiu no corpo o movimento do animal, unhas afiadas. Abriu a boca. A armadilha. E ele veio. E a boca seca e enorme abocanhou. Dentes de raiva e fome. E mastigou. E bebeu o sangue. E engoliu carne, pele, mastigou osso. Com o desespero e o terror do inferno. E depois da morte sorriu. Cuspindo pelo e bolas de carne e tripas.

Já não sabia quanto tempo. O tempo parecia uma piada. A luz sim era determinante. E quando o pequeno facho se apagava, mergulhava profundamente em um não-ver absoluto.

Foi em um destes escuros que sentir o movimento dolorido da mão. Ela voltava de um torpor antigo. Os dedos mexiam. O braço. O braço estava vivo também. Levantou a mão com esforço até perto dos olhos. Nunca percebera a importância da mão. Uma lágrima escorreu. Ainda não chorara. O sal deslizou de leve por seus olhos. Passou a mão nas lágrimas e lambeu os dedos.

E então os ouviu. Conversas. Palavras estranhas. Passos. Gritos. E o mundo começou a tremer. E terra caiu-lhe no rosto. Cuspiu. E gritou. Grito de raiva. De força. Grito de desespero e ferro. Grito de quem não morre. Berro de corpo que suporta o peso. Uivo da carne que resiste á pedra e ao cimento.

E enquanto era retirado dos escombros gritava. Mas não havia dor. Havia força, havia poder!



sábado, 20 de março de 2010

Ladrão


LADRÃO

Ronie Von Martins





Tinha que fazer. Seria fácil. Pensou na mulher. Na alegria da mulher quando voltasse com uma bolsa nova. Uma bolsa era tudo a mulher queria. “Todas têm bolsa bonita, só eu que não. Só eu que não...” isso martelava na cabeça dele. Foi então que aceitou. Tinha recusado. Sempre recusara. O primo vinha com aquela conversinha de que tudo era fácil, muito dinheiro e essas coisas. E ele recusava. Medo? Sim, era medo. Mas quem não tinha medo. O medo é que nos tinha. A todos. Amarrava todos pelos pés, e quando queria divertir-se, nos puxava para o inferno. Era assim que ele estava se sentindo. Como se alguém o estivesse puxando para o inferno. E o inferno era a casa.



Forçou o cérebro para perceber o ato como algo mecânico, matemático. Pularia a janela, o primo trabalhava na casa. Deixaria destrancada. Era só entrar. A velha estaria dormindo. Ela dormia cedo. A velha.



Dizia o primo que era uma mulher muito chata e doente. Mulher má – dizia o primo – enrugada como uma bruxa. Merecia ser assaltada. E se morresse de susto não tinha problema. Já era velha e ninguém ia dar falta.

O primo não gostava da velha. Ninguém gostava da velha. Nem o mundo.



A rua estava escura. O primo mandara... Pagara alguns moleques para quebrar as lâmpadas dos postes próximos. De bodoque na mão, a gurizada fuzilou as lâmpadas, a escuridão caiu sobre a rua.



Queria estar em casa, olhando o Fantástico, comendo pipoca e tomando um mate. “Meu Deus, o que é isso, o que eu estou fazendo?” pensava. Chamou o grande pastor que cuidava do pátio pelo nome. “Leão. Leão!” eram velhos conhecidos. O primo, jardineiro da velha, levava o cão para passear. Levava-o para a casa dele. Ele dava comida, fazia carinho. Eram amigos. O cão gostava mais dele do que da velha. Os dentes do Leão eram navalhas. Mas jamais o morderia. Veio fazendo festa, lambeu o rosto dele, balançou o rabo. “Amigo, amigo...” ele falava. O coração forte a esmurrar as paredes do peito.



“Vai, vai sim.” Disse a mulher. “Chega de viver como escravo. Olha pro teu primo, aquele sim sabe viver. Sempre com dinheiro no bolso, carrão e dando vida boa pra mulher dele.” Ele tentava argumentar... Mas não saia do “Mas querida... mas...” e ela já o enchia de gritos e desaforos. “Palerma, frouxo, covarde.” Ela era bonita, jovem. Ele era feio e velho. Quarenta e oito anos como servente de pedreiro acabava com qualquer um.



Enquanto vomitava no banheiro, olhou-se ao espelho e entristeceu. Acabado. A imagem era do fracasso. Do seu fracasso. Não tinha filho. Não tinha mais ninguém, só ela, Hilda. Mulher fogosa e brincalhona, mas muito geniosa. Ainda lembrava dela no casamento. Ele prometendo vida nova. Ia ser pedreiro, ia construir uma casa linda. Tinha muitos fregueses, ia contratar ajudante... ela ia ver só, ia ver só...



O tempo passou e nada mudou. Continuou como servente. Pobre e triste. Mais triste do que pobre. A bolsa era o símbolo, o signo de tudo que a mulher queria que ele prometera e não cumprira. Quando brigavam – coisa freqüente – ela zombava: “E a minha bolsa nova?”



Trouxera alguma comida para o cachorro, sabia que ele só comia ração, adorava carne. Trouxera restos de carne do açougue. Jogou em um canto e o cão desapareceu. Escalou a parede, empurrou a janela e entrou na casa. O coração nunca batera tão forte. Chegava a doer no peito. Quase pensou que ia morrer ali. Acendeu uma pequena lanterna. Era uma sombra. Quase não fazia barulho. Mas ouvia todo o som que seu organismo angustiado fazia dentro da barriga. Pensou no primo. O que estaria fazendo?



Levantou-se do corpo nu da mulher. Tudo escuro. Não gostava de ver nada. O primo estava fazendo o que tinha que fazer. Era bobo. Mas era um bom sujeito. “É, um bom sujeito.” Pensava nisso quando as mãos de Hilda o puxaram para dentro do seu corpo novamente. Foi nesse instante. Que o facho da lanterna atingiu o rosto branco e assustado da velha. Mãos tremendo, lágrimas no rosto. Enorme revólver nas mãos. Um estampido. Um latido de cão, um orgasmo e o mundo voltavam ao seu louco girar.

A laranja




A LARANJA
Ronie Von Martins



Muito alta. E na parte mais alta. Zombando de sua impossibilidade, ela. Grande e vistosa. Redonda. A laranja.
Rosto voltado para cima maquinava em seu pequeno cérebro artimanhas fantásticas para apanhar a grande laranja. Outras menores e sem graça estavam ao seu dispor. Mas a grande. Ela. Estava longe. Distante de seus sete anos de idade.
E o pior de tudo é que era um homenzinho como a sua mãe dizia. Não devia pedir ajuda. Aquilo era uma questão de honra. Era entre eles. A laranja e ele. Mas era alto. Isso podia ver. Do alto ela continuava zombando.
Pedra. Sim. Colocaria à baixo todo o orgulho daquela laranja à pedradas. Agora ela sentiria o poder do seu braço. Agachou-se no chão e apanhou uma pedra. Precisaria de mais – pensou – e ao pé da laranjeira amontoou um pequeno número de pedras de todos os tamanhos e formas.
Da janela de casa a mãe observando as “funções” do filho resolveu aproximar-se para ver o que acontecia e perguntou-lhe o que fazia. Apanhado de surpresa e não querendo se “entregar” e pedir a ajuda da mãe respondeu que estava fazendo uma montanha de pedras para carregar com o carrinho de plástico. O olhar do menino misto de mentira e ingenuidade era algo digno do sorriso que se fez no rosto materno. “Tudo bem meu filho, mas não vai te machucar... qualquer coisa a mãe ta lá dentro.” E com passos lentos e ainda com uma rápida olhada para o filho a mãe voltou-se para os seus afazeres.

Levantou-se do chão onde estava sentado juntando as pedras e o pânico tomou conta. Quase chorou, quase chamou definitivamente a mãe. Mas segurou. Resistiu firmemente, “era um homenzinho...” aos seus pés jazia uma laranja, enorme furo, morta, seca. Um grande pássaro estava próximo de sua laranja. Ia furá-la, estragar a fruta, vence-lo. Frustra-lo para o resto da vida. Ficaria traumatizado. Ouvira seu pai dizendo esta palavra quando olhavam televisão, achou bonita, perguntou ao pai o que significava... o pai respondeu alguma coisa que ele não entendeu bem... sabia que tinha a ver com tirar algo de alguém, fazer alguém sofrer... por aí. Se o pássaro comesse sua fruta, estaria marcado pro resto da vida, seria um terrível “traumatizado”. Foi então que em desespero começou a tocar pedra na árvore. O pequeno corpo no esforço de jogar pedras nas alturas.

Na cabeça. A pedra elevou-se, parecia ir longe, mas de repente, sem mais impulso, força ou vontade parou. Ele observou. A pedra morreu no ar. Os olhos do guri se arregalaram, e ela voltou. Certeira, veloz, pesada, “pum”. Na testa. O guri caiu, tentou segurar o choro, levantou-se, o corpo tremendo de vergonha, raiva e dor, os braços frenéticos no ar, as pernas saltitando e fazendo o pequeno corpo dar pinotes engraçados. Gritou. Chorou. A mãe e o pai correram. Não parava de chorar. A mãe perguntava o que acontecera, o pai com o filho no colo tentava encontrar alguma coisa errada, um arranhão, um machucado. Ainda aos gritos o menino percebeu no céu o pássaro que estava na árvore. Assustada a ave resolvera fugir. Olhou para o lugar onde a laranja se encontrava, lá estava ela. Parou de chorar e pediu pra sair do colo do pai. Disse que estava bem, que fora só um susto...o pai desconfiado olhou pelo terreno, procurando algum bicho, inseto, mas não encontrou nada. “Não quer olhar TV meu filho?” Não, o guri não queria, e os pais por fim resolveram voltar para dentro de casa. Aliviado e enfurecido, o “galo” na cabeça incomodando, o pequeno homem apanhou um pedra grande e atirou contra a árvore. Errou. E sobre o muro a pedra passou. A criança ouviu quando uma vidraça se espatifou. Do outro lado uma voz de homem gritou uma palavra que ele tinha lido na escolinha, na porta do banheiro, mas que não sabia o que significava. Mas pelo jeito que o homem falara não devia ser coisa boa. O coração parecia que ia sair da boca e um medo pesado e opressivo tomou-lhe o corpo e a mente. Seria preso. A polícia viria pegar-lhe. O resto da vida na cadeia. Como os filmes que via na noite quando o pai dormia e ele voltava a ligar a TV do quarto. Tinha que fugir. Tinha que fugir! Correu pra dentro de casa, apanhou a pasta do colégio, tirou os cadernos, enfiou o urso de pelúcia, apanhou a espada do He-man, precisava de proteção. Juntou um saco de biscoitos no armário, uma garrafinha de água na geladeira e ganhou a rua. Correu para a porta exatamente no momento em que o vizinho apertara a campainha. Tinha que ser agora. Deveria ser rápido, frio e calculista. Esperou o pai aproximar-se, no exato momento em que a porta abriu-se ganhou a rua. Uma golfada de ar gelado, uma sensação estranha invadiu seu corpo. Agora estava sozinho. Ele e o mundo. Não tinha casa, pai, mãe, amigos. Só o mundo e os perigos das aventuras que surgiriam. Correu para as esquina, o lugar mais longe que fora até agora. Faria seu lar ali. Sim. Aquela esquina seria seu novo lar. Faria uma cabana, encontraria um cachorro como amigo e começaria uma vida nova.

Sentou-se em uma calçada e pensava na vida quando o Jovenal, o dono do armazém chamou-lhe. “Brincando seu Veriatinho?” O menino aproximou-se, peito estufado, olhar severo e forte. Agora era um homem enfrentado o mundo. “Fugi de casa, agora estou morando sozinho.” Os olhos do Jovenal, homem gordo e simpático sorriram. “Então o jovenzinho resolveu abandonar a família?” O menino apenas fez que sim com a cabeça. “E onde vais morar?” “Aqui.” respondeu o menino. “Vou fazer minha casa nessa esquina.” O Jovenal entrou para o armazém e voltou com uma grande caixa de papelão. “Toma então, tenho uma bela casa aqui.” Os olhos do menino se iluminaram. Escorou a grande caixa de papelão ao lado do armazém e entrou. Uma sensação de conforto invadiu-lhe o corpo. Agora estava protegido, dentro da sua própria casa. Pegou a espada do He-man, abraçou-se ao urso e “enroscou-se como um cachorrinho para dormir”. As aventuras se sucediam uma atrás da outra. Dragões, feiticeira, índios, monstros, todos eles eram derrotados pela sua grande espada encantada. Lugares estranhos e nunca vistos eram desbravados, por onde andasse as pessoas o cumprimentavam, pediam sua ajuda. Sem dúvida tornara-se um grande herói.

Acordou ouvindo a conversa do pai e da mãe. “Esse guri...” foi o que mais ouvia das conversas. Olhou assustado para os lados, estava no quarto, o seu quarto. A caixa de papelão do seu Jovenal ao lado da cama. “Pois é...” era a voz do Jovenal “ O rapazinho deitou na caixa e dormiu como uma pedra.”
Estava novamente em casa. o que aconteceria? E a polícia?

A mãe entrou no quarto, afagou-lhe os cabelos. Isso era bom. Muito bom. Algumas palavras. Muitos sorrisos. E a noite veio. O sono e o sonho.

No outro dia jogava bola no pátio. Era um grande jogador de futebol, a árvore era o adversário, ridículo, pesado, e ele driblava o oponente do jeito que entendia, era um craque do futebol. Correu, driblou, cansou. Sentou-se satisfeito, o jogo havia acabado trinta e nove a zero para ele. A árvore não havia feito nenhum gol. Sentou-se no chão. Ofegante. Um silêncio enorme invadiu a manhã. “Pum” a laranja despencou na sua cabeça. Meio tonto e enfurecido, sem perceber o que fazia, apanhou a laranja e lançou-a sobre o muro. Arregalou os olhos. Uma careta. Esperou o berro que escalou o muro e saltou aos ventos:
- Mas que merda!!


Arte: Anieli Rosa Martins

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Educação e cultura

Com Adorno – Educação e cultura (1)
Ronie Von Rosa Martins



Theodor W. Adorno dizia que um dos objetivos da educação seria o de se opor a crescente violência e barbárie em que o ser humano desavisadamente se encontrava. Marcado pelo horrores de Auschwits, Adorno via na educação uma das formas de resistir à barbárie.
No entanto o que se percebe na educação brasileira não tem nada a ver com essa idéia inicial. A educação não visa a formação do indivíduo como um ser humano autônomo e democrático. As instituições escolares apenas resistem ao tempo, mantendo as mesmas tradições e verdades que erigiram a sociedade do jeito que ela é.
Adorno critica nos seus escritos a transformação da escola em indústria, empreendimento comercial. O autor não vê como um pensamento administrativo e burocrático possa servir para emancipar o sujeito e transformar o estudante e o cidadão em criaturas melhores. Pelo contrário, percebe através destas dois pensamentos formas de reduzir a própria educação em mercadoria, facilitando dessa forma uma educação “mais ou menos”, para as massas. Ou péssima, se formos um pouco mais radicais.
O aluno se vê seqüestrado pelas organizações do espaço e dos tempos escolares, é seccionado pela organização das disciplinas e conteúdos e é seduzido a se diluir num aparato cada vez mais tecnológico a fim de estar e ser como todos os outros. Buscar o seu lugar ao sol. Mesmo que para isso tenha que bater em alguém. “cotoveladas” diria Adorno.
A escola promove a competição em detrimento do companheirismo e da solidariedade, lembrada apenas em datas marcadas na folhinha. Não há um movimento dentro da educação para fazer pensar a educação, mas sim em cumprir o que é e está.
O professor, profissional que deveria por sua condição de intelectual e pensador, promover debates e questionamentos sobre a sociedade a fim de buscar melhorias através de um pensamento que criasse opções e novos caminhos, se vê automatizado e prisioneiro de sua limitação, tanto econômica quanto cultural, e apenas ecoa o grande discurso dos que estão no poder.
Como falar de violência em sala de aula, se o próprio aluno é tratado como se fosse um prisioneiro? Para não dizer do próprio professor, amedrontado pelo dedo fascista de um discurso tecnicista e castrador?
O que pensar de uma escola que obriga o aluno a pedir a chave do banheiro publicamente para poder se aliviar. O carcereiro olha para o infeliz e diz: Não demora!
A barbárie não está só em Auschwits, e se esta mesma escola não consegue fazer seus alunos “aprenderem” a ir no banheiro sem destruí-lo, o que se espera que os alunos aprendam?
Há uma visão antiquada que reduz a instituição educacional, com todos os seres que a habitam em mero braço da força e do discurso tradicional que procura manter tudo do jeito que sempre foi.
A violência, de todas as formas, se origina da necessidade que o homem tem em controlar o medo e na conseqüente necessidade de dominar. E a educação não questiona nem argumenta contra isso. Pior, incita na alma dos estudantes o egoísmo e essa necessidade de dominação. A formação não é mais vista como uma forma de singularização do indivíduo e como um caminho para melhor compreender o mundo e interferir positivamente nele, mas sim como uma forma de “encarecer” uma mercadoria. Cada vez mais o homem busca “formação”, não como forma de melhorar como homem, mas apenas para se promover e valorizar o produto. Ele mesmo.
A escola e a educação são violentadas por visões que não vêem a educação, mas o que ela pode lhes dar em troca; dinheiro, poder político, status social. E a educação não tem voz. Sofre de bullying nas mãos de outros interesses.
A educação, deveria pelo menos, denunciar essa “pseudoformação” como diria Adorno, apontar as condições que a geram, mas o que vemos são discursos que procuram reduzir esse fato histórico e social em atributos de responsabilidade individual.
A escola é meramente um lugar para “docilizar” o indivíduo, fazer com que perceba que é só mais uma engrenagem da máquina. Apêndice do organismo estatal.
Enquanto isso, o menininho nervoso levanta de sua cadeira, ergue a mão trêmulo: “Posso ir ao banheiro fessora?” Se a professora está de “boas”, permite que a criança saia... ela atravessa o espaço da escola e chega na secretaria. Várias pessoas conversam: - A chave do banheiro? Ele abana afirmativamente a cabeça. Alguém procura em uma gaveta uma chave...
A educação é isso. Uma prisão, e toda hora alguém se ajoelha pedindo uma chave...
É... Educação após Auschwits...

Conflitos - sem verbos

Ronie Von Martins


Dois. Homens. Um. Barba grande, rosto vermelho. Nariz também. Olhos brilhantes. O outro magro. Rosto comprido e pelado. Pouco cabelo. Dentes trincados. No ar as ofensas. Um olho dentro do outro. Cruzamentos de ódio. Movimentos ao redor. Estudo do corpo. Dança. O momento do soco. A mão. Punho serrado e duro. O lábio em explosão. Sangue. Gotas na camiseta. Na boca. Novamente o punho. Baixo. A barriga. Um urro. O salto e o abraço. No chão os corpos. Rolo compressor de carne. Braços e pernas sem corpo. Invenção do movimento na fúria.

Na rua a observação silenciosa do cão. O cheiro do sangue nas narinas, a tensão da luta no movimento arisco do animal. O espectador.

As palavras terríveis. Projéteis mortais. Cusparradas de verbo. Setas envenenadas. E o joelho em movimento simétrico. E o queixo. E a dor. E a tontura. A barba e o sangue. A cabeçada. Os dentes fora da boca. Mais sangue. Mais dor.

O animal e sua distância. O tombo. O chute. O pé no ar. A luz e a escuridão. A luz...a escuridão. O corpo. O giro para a esquerda. A perna presa, o outro tombo. Mais socos.
Já não um rosto. Só a dor e carne. Em exposição. A vergonha. O insulto. A honra.

O cansaço e sua soberaria. O ofegar além do corpo. O tropeçar em si mesmo. A oscilação da perna. O outro. O corpo em teimosia. Erguido. Braços para a luta. Punhos cerrados. Meio termo? Não.

Primeiro o grito, depois a mulher. Lágrimas abundantes. O afogar do arrependimento e da vergonha. O descuido. A mão feroz no rosto, o murro animalesco. A agressão final.
O abandono do corpo. O silêncio. O surdo som do corpo em último tombo. A distância do outro. Passos... tempo. O corpo e a ausência. A rua.

Os beijos carinhosos. Os sussurros e lamúrias. Desculpas imploradas, corpo embalado. Canção de amor. Palavras afogadas na dor.

Uma sirene e a ambulância. Curiosos. Perguntas. Motivos. Explicações.

Amores, traições, vingança, dívidas, bebida, jogo...

Só a rua agora... E o cão.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

lobo

LOBO
Ronie Von Rosa Martins


Todas as prisões são o corpo. A limitação do corpo. O espaço delimitado do corpo. A carne o osso e o passo tímido da perna exata.
A prisão é a cama a peça e a casa. A cerca e o espaço que te traça.
Nos livros as traças. Letras e mais letras, palavras, verbos, versos, universos. Mesmo assim preso. Mesmo assim refém das limitações da carne sua.
Sobre a mesa o espesso volume. Moby Dick. Ahab. O oceano.
Civilizado. Docilizado. Afrouxou a gravata. Forca estética de várias cores e tecidos.
O respirar do corpo além do nó.
O copo de uísque pela metade. Dois icebergs flutuando. O degelo. O gelo.
Rasgam o tédio, a moral, as normas, as ordens. O real.
Um sorriso se desenha em lábios que não sorriem. Mais. O álcool é o segredo para o outro mundo. Dimensão outra. Imensidão.
O corpo aperta uma tecla e Nei Lisboa canta só para ele : “Seremos sempre assim, sempre que precisar. Seremos sempre quem teve coragem. De errar pelo caminho e de encontrar saída. No céu do labirinto que é pensar a vida. E que sempre vai passar por aí”

Pensar a vida. Errar pelo caminho...
Os passos levam o corpo à janela. O vidro proíbe o ar. A visão é através, filtrada, controlada. Os olhos da casa. Não olham para fora; mas para dentro.
Há ninguém. Todos que não estão. Memórias. Imagens. Rostos. Ações. Tudo perdido nos jorros de tempo de Cronos.

Civilização. Ao final do braço a mão e seus dedos. Unhas aparadas e polidas. Mão enfraquecida. Braço cansado. Os pés cobertos por objetos de couro. Lustrosos e macios. O pé?
Sentado desamarra o sapato. A meia escura. Agora a visão do pé. Todos os dedos. Sorri. Não é sempre que observa o próprio pé. Meche os dedos. Boa sensação. Um pé esbranquiçado, sem vida. Sem cor. Ao lado o sapato observa, guarda, vigia. Pronto para enclausurar novamente. Proteger, cuidar, colocar o pé ao lado de tantos outros. Calçados.

Eles voam. Primeiro um. Depois o esquerdo. Na rua já escura estatelam-se. Srão os pés de um mendigo qualquer. Um homem que mendiga passos certos e exatos.

A casa está surpresa. Em silêncio. Presente algo. As paredes vibram silenciosas. Portas e janelas estão anciosas e asustadas. Então a casa oferece o quarto, cama grande e macia, ar condicionado, televisão; seduzir. É o que o carcereiro pensa. Seduzir o homem. Não? Ainda não? A cozinha. Geladeira repleta; queijo fatiado, presunto, galinha, yogurtes, cremes, doces, bebidas... não?

A água lava o corpo em rios. Rios que escorrem pela carne. Pelo rosto. Não? São lágrimas? Salgadas?

Nu. Assopra as luzes. A escuridão. Do outro lado a noite. A casa já não tem poderes. As paredes são apenas ilusões. As narinas buscam todos os odores. Todos os cheiros que se mesclam confundem. Os olhos dilatam-se. Buscando nas distãncias aquilo que não se vê. A casa não é mais nada.

E a noite clama. A noite chama. E então é ela. Só. Redonda. Brilhante. Ele pensa na vida. Pensa nos sapatos. Nas portas. Nas roupas. Nas palavras doces, nas regras, nos detalhes... pensa nas filas, no cheiro de fumaça... e vomita. Vomita sua civilidade. Pela garganta. Pedaços de uma vida em pedaços.

E ele urra. E uiva. E salta. A fúria é o caminho. O desatino. E atravessa o vidro que corta. E o sangue que escorre. O cheiro, o gosto da vida.

Do outro lado da casa a noite o apara, o acolhe. E ele corre. Pernas que não são as mesmas. Coração outro. Força que invade cada célula, cada molécula.
Selvagem. Entre os carros. As pontes. Os homens. O medo, o susto. O pânico.
Fera. Suor. Escorrendo abundante, expurgando todos os medos, todos os anseios. Musculatura que salta sobre cercas. Se lança sobre árvores, arbustos. Prazer animal. A terra no pé, o vento pelas narinas, os olhos engolindo tudo, devorando toda uma vida que passa. O campo. As árvores. A mata. O uivo. O grito. A fúria se espandindo sonoramente como uma onda que vai arrasando tudo e todos. Depois o silêncio. Depois os comentários. Depois a versão oficial, depois a mentira. Depois o exagero, depois a lenda. Depois o tempo. Depois as calçadas. Depois os prédios. Depois o aço e o vidro, depois... depois ...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A herética língua do poema nu

ESCREVER


Como exercício. Oficina. Malho.
Entortar o aço, dobrar o indobrável. Escrever no suor da gota que me disfaço
Escrever na brancura da folha que ameaça e zomba e mata.
Garimpar letra por letra no cansaço,
Montar a frase com sentido ou além dele
Montar o verbo – selvagem animal
Resistir ao tombo... ou aproveitar
do verbo todos os tombos, deslizes, decaídas,
Empanturrar-se do verbo e vomita-lo furioso no sentido alheio
Gramática ancestral, primeva, a-gramática
Gramática das loucuras profundas.
Erigir o discurso do louco
Confrontar o outro,
O santo,
O são,
O ser.

Produzir o não-discurso. Aquele que sufoca o senso comum,
Aquele que expõe a carne e a pálida textura da brevidade do instante
Perante a gravata e alto salto da gramática ética
A herética língua do poema nu.

Escrever na frincha do que não é dito
Grafar na fresta, no espaço mínimo do piscar...
Pescar da profundeza da pele
A gargalhada rizomática das inconstâncias.

E pedir tradução e interpretação
E exigir ao olho atônito a razoabilidade
E ordenar um sentido

E apagar-se frenético
Espedaçando-se com a borracha.

Ronie Von Rosa Martins

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

NO ESPELHO

NO ESPELHO

Um sorriso que não era; abriu-se triste em rosto indefinido.
Reflexo, imagem, espectro.
O sorriso já não era. Distante até mesmo do seu sarcasmo.
Só o desenho de sua carne refletida em olhos, boca, cabelo e dúvidas.
Imagem. Interpretação.
A mão procura a boca, e no espelho não há textura, espessura, tato.
Lentamente ergue o braço. Ela conseguiu. Fizera o que ninguém mais fizera.
A mão treme. O braço pesa.
No aço do espelho observa o espaço que a resumiu. A redução do corpo. Alguns livros; linhas de fuga, frestas e buracos na estrutura quase hermética do lugar; cadeiras, mesas, quadros – mais linhas de fugas – cada olho, cada rosto remetia a um outro que não ela, deslocamentos possíveis – exercícios necessários...
Ereta confrontando e confrontada por si mesma... e todas as outras que sabia que era, o olho traçava linhas invisíveis que a costurava magicamente ao seu outro. Ao ser outro.
Frente a frente os “eus” de cada uma se observavam. A concretude de uma e a efemeridade da outra... a realidade das duas. Multiplicidades.
A imobilidade de ambas. Metamorfose, simbiose da carne e do reflexo. Da criatura e do criador. Da luz e da sombra. Quem seria a sombra?
Ela conseguiu. Era o que o cérebro aquém do espelho pensava. Possibilidade.
No rosto as rugas em seus entrecruzamentos matemáticos prometiam números elevados. Os cabelos de um preto falecido lembravam infâncias distantes, sonhos...
Pensou na morte do reflexo. De tudo que era reflexo...
Gostaria de tomar um chá. Sentar à mesa de Hatta e Haigha em março e enlouquecer tentando descobrir porque um corvo se parece com uma escrivaninha.
Do outro lado a que não era sorri, grande sorriso único, solitário, zombeteiro sorriso de Cheshire: “Se não sabes para onde vais, qualquer caminho te levará lá”.
Lembrou da menina.
Onde andava Alice?


Ronie Von Rosa Martins

Texto também publicado na minha coluna no "ENTREMENTES - Revista digital de Cultura."

domingo, 3 de janeiro de 2010

Comer: da arte de dizer a comida ao fato de fazê-la ser além da comida; verbo

Colherei o grão da minha angústia
Plantarei árvores de abismos
Raízes distantes em tempo espaço e discursos
Mastigarei-as
Em danças caóticas de peiote e
Explodirei meu corpo em tantos e vários outros
Grãos.

E em cada vão.
Em cada frincha, fresta
Produzir a festa da não-razão
E os loucos todos convidar

A grande festa do meu devaneio; nosso
No fosso raso da minha verve
Redigir em palavra ilegível
Em gramática do delírio
Todo pergaminho que se perde
Na impossibilidade da língua

Com a língua
Lamber salivante a régia flor
Das certezas claras
Lambuzar os corpos
Exatos e enxutos de todo discurso hermético

Herético, dançar nos altares a ingenuidade da história
Beber todos os líquidos sagrados
Devorar na carne toda a carne sacra
Todas as páginas místicas
Palavra por palavra

Pantagruel empanturrado; Artaud explodindo
Corpo e loucura, mente e moral
E alterar o verbo e a verve
O fluxo e o curso
De qualquer, breve
E profundo pensar.


Ronie Von Rosa Martins