quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

PIRULITOS E VELHOS




Era  um fusca. Branco. Antigo. Dentro ela. Jovem. Bonita. Simpática. Na rua ele. Bicicleta e suor. Fone no ouvido. Música encharcando corpo e espírito. Corpo e espírito no corpo musical do momento. Um olhar. Simples e curto. Distante e tão incrivelmente perto.  E os carros, e as pessoas, e o tempo sem dó. Dor. E o nunca mais. E o para sempre.
O agora é diferente. Velho e sem bicicleta. Reivindicação dos joelhos. Das costas e do sem brilho dos olhos seus.  Agora sem fone nos ouvidos. Já não ouvia nada. O som era o da imagem. Inventava sons para o que via. E era o banco da praça. Sempre ali. Fugir sempre da casa. Ser velho exigia esse esforço. Para o bem de todos. Dele mesmo.
As bicicletas passavam. E ele ficava, mas ia também. Girava no cérebro, os pedais e o esforço. E lembrava do vento na cara. E o suor. Do coração batendo forte... pôs a mão no coração para sentir. Nada. Não sentia muita coisa.
O menino chupando um pirulito sentou ao lado. Olhos grandes de entender os velhos. "você tá triste?" Foi a pergunta. Os olhos de já não entender as crianças se voltaram pro menino. "Não." A criança levantou-se, tirou um pirulito do bolso e entregou. Correu para apagar sua imagem dos olhos antigos. Foi-se. Na mão o doce. Os olhos vetustos e a rua que ia e voltava sempre.
A senhora com bolsas passou e sorriu. O pirulito era cômico... ou trágico. E ele ainda não sabia o que fazer. Drama ou comédia? Não gostava muito de comédias, mas já estava velho demais para  dramas. Para o drama é necessário um coração vigoroso e cheio de sentimentos. Seco era o dele. Antigo.
Do outro lado da rua um casal discutia. O drama. Jovens perdidos em intensidades. Belo e estranho. Percebia-se a atração. Gesticulavam furiosos, mas pediam tudo um do outro. Amor? O que seria o amor. Ela fazia menção de ir. Ele segura-a do braço, moderava o tom da voz, suplicava. Ela chorava. Lágrimas e dizia palavras que a rua engolia. Se abraçavam. O beijo. Os corpos juntos. Vibração. E iam também. Mão ligadas, sorrisos envergonhados e felizes. Mais uma vez voltavam. Quantas vezes ele os vira ali. Discutindo e voltando? Várias.
Seria aquele o lugar ideal para resolverem seus problemas amorosos. Haveria um lugar adequado? Não sorriu. 
Uma leve brisa soprou algumas folhas caídas. Giraram no ar. Bailado contemporâneo e pós-moderno. Bailarinas bêbadas e alucinadas. Frenéticas. E caíram. Todas juntas. Mortas novamente. As folhas. E ele. Pensava que nunca aprendera a dançar. Acompanhar o ritmo de uma música. A potência de uma coreografia, ritual de acasalamento e namoro. Sempre fora difícil. Dançar era movimentar o corpo, vulneralizar-se para as forças inusitadas da música. E ele era pedra. Sempre fora. Duro. Tentara algumas vezes. Mas era um desastre. Parou. E ali estava.
O joelho doía. Sempre doía. E as costas.
E o pirulito doce. E um certo constrangimento. A infância parecia querer fazer troça de sua mão gelada e enrugada. Jogar fora? Não parecia certo. Esperar outra criança? Não seria confundido com esses miseráveis assediadores de menores? Jogar fora. Afinal ela já não havia ido? A infância?
Era colorido. E os olhos antigos e secos observavam. O colorido do doce. Seria o menino um anjo ou um demônio? As crianças sempre eram os  dois. Anjos e demônios. Ele fora. Medonho quando pequeno. Correr na rua. Jogar taco com os amigos. Bolinha de gude. Queria esboçar um sorriso. Mas não. A boca estava selada para esses prazeres. E nem a memória conseguia desenferrujar aquela porta antiga.

E então ele viu novamente. Não era o fusca de quarenta anos atrás. Era uma cadeira de rodas. Uma senhora grisalha empurrava outra um tanto mais velha. Rosto fechado. Olhos apertados pela claridade do sol. Triste. As duas. Mãe e filha. A filha e o fardo. O fardo e a filha. Ela sabia. Ser empurrada. Direcionada. A cadeira. Mesmo com rodas era uma limitação. "Tudo bem mãe?" A voz da filha. E a rua em silencio parecia conspirar para que ele ouvisse tudo. Ou nada. A outra mulher não respondeu. Triste. Mas os olhos se encontraram. Breve instante. Segundo. Nele um estremecimento. Algo estranhamente arrepiante. E rapidamente ele enfiou o pirulito na boca. Plástico e tudo. A cena congelou. Segundos, e o silêncio foi rompido pela gargalhada solta e desesperada da mulher. Em seguida ele se precipitou a rir também, com todas as suas rugas e dores. Estavam vivos pensou. E continuava a rir enquanto ouvia ao longe as gargalhadas da mulher na cadeira de rodas. Estavam vivos!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Nununha Cabeção



                NUNUNHA CABEÇÃO
Ronie Von Rosa Martins



Cabeção. Óculos enormes. Cabelos desgrenhados. Olhos que consumiam o visto. Braços magros e mãos finas. Dedos compridos de lambuzar nos textos e chupar o dedo.
Ele não viu a menina que entrou na biblioteca. Toda a biblioteca viu. Simplesmente linda. Mas ele não viu. Cravado estava no livro. Plantado de corpo e alma no seu delírio de leitor fanático.
A professora Ritinha havia inclusive feito algumas observações sobre o comportamento anormal do menino, “Esse guri só quer saber de ler. Não faz mais nada, só lê.” E esse “só ler” era dito com uma espécie de frustração. Ao que a diretora da escola respondia que “se ele está indo bem nas outras matérias...” e estava. Era uma espécie de referência na sala de aula. Sabia dos deuses gregos, romanos e nórdicos pelos gibis, conhecia as regiões e costumes de outros povos lendo as revistas geográficas do pai, entendia de física e química porque lia um almanaque antigo de ciências que ganhara de um professor amigo, mas sua predileção eram os romances. Lia tudo. Tudo.
Mas era feio. Era esquisito. As crianças o procuravam só quando precisavam ajuda em alguma disciplina. De resto era Nununha Cabeção pra lá, um tapão na orelha, Nununha Cabeção pra cá, um chute nas canelas e um empurrão. Não reclamava.
O nome era Francisco Nunes, mas herdara o apelido de Nununha do avô, “seu” Nununha, o velho da banca da esquina. Diziam até que essa mania de “comer” letras vinha do avô. Uma maldição.
Enquanto os amigos jogavam bola e exercitavam o corpo, Nununha, de mirrado corpo exercitava o cérebro e a imaginação.
E tudo era quixotesco. Dramas. Comedias, tragédias.
Mas não viu a menina. E ela o viu. Era trabalho de escola. Pesquisa sobre um escritor. Ela era de outra turma. Mais adiantada.
Ouvira falar do Nununha. Entre troça, espanto e admiração, era propagada a inteligência e a bizarrice do menino.
As vezes no recreio, passava horas acompanhando as formigas carregadeiras, olhar atento, quase tentando uma comunicação que fosse capaz de resolver as dúvidas que lhe vinha na cabeça. “Por que a fila”, “como tanto peso?” “o que diziam uma para as outras quando se encontrava?” e assim ficava até o sino tocar ou alguém lhe dar um empurrão e dizer que Acabara o recreio.
Levantava do chão e ia  para a sala. Não via ninguém. Sua classe era seu ninho. Nem o barulho dos colegas conseguia irritá-lo. Quando uma bolinha de papel acertou seu olho teve vontade de chorar, mas logo lembrou de outras histórias, de heróis que eram atingidos por balas, flechas, e pedras e resistiam bravamente. Monstros haviam em todos os lugares. Acionou rapidamente o botão que trancava as escotilhas da nave e fugiu daquele planeta hostil. Flash Gordon.
Ela era bonita. E o namorado a observava sorrindo da janela. A menina sentou em frente ao herói. Sansão prestes a sofrer nas mãos de Dalila. “Oi?” e o inferno daquele dia em diante começara. Seus olhos de traça pela primeira vez avistaram algo que merecia atenção além dos livros e letras. Ela sorriu, disse que ele era bonito, que era interessante. Que queria conhecê-lo melhor. Que seu nome era Estela. “Ele pensou Estrela.” E um coração antes de papel e tinta preta agora batia assustado e  estranhamente afoito. A mão dela sobre a sua. Quente, pulsante. Galáxias que se tocavam. Queria chorar. Pela primeira vez quis chorar. Ela levantou-o pelo braço, inocente. Ingênuo. O sorriso do outro na janela. Nenhuma leitura conseguia avisá-lo neste momento do que o aguardava. Ao transpor a porta. Toda a escola. Dois lados. Um corredor. Gritos e insultos. Pontas-pé, tapas, empurrões, ofensas, gargalhadas e os olhos dele sem saber o que acontecia. Procuravam a menina, os óculos no chão. Quebrados, chutados, pisoteados. A pasta, os livros. Destruição. No fundo do corredor, abraçados Estela e o namorado. Risadas. Um tombo. Uma vergonha. Uma vontade de morte.
Aos trinta e dois estava preso. Aos quarenta e dois enterrado no cemitério da família.
Ainda hoje quando alguns passavam pelo local lembravam com horror do Nununha Cabeção, o menino que pusera fogo na escola.
Chamas enormes. Quentes. Infernais. A cidade correndo como as formigas, mas não em fila. Desorganizados, horrorizados.
Ele esperou o Jonas sair de casa. Sabia que o menino não ia perder a festa.
“Qual o problema?” a resposta foi um golpe violento. O cabo de vassoura  partiu-se. E o Jonas caiu. Estela choraria muito. A cidade inteira ia chorar bastante.
Aos quarenta e dois anos decidiu que não queria mais. Deitou no catre da cela, tirou os óculos do rosto e dormiu. Desligou um botão que só ele sabia.
“Morreu” disseram.
Outros dizem que virou livro. Que a biblioteca ficou assombrada. Escutam livros serem folheados e essas coisas.
E uma estranha fila de formigas cortadeiras deu para atacar o acervo. Não há o que mate as danadas.
As vezes elas param e conversam. Dizem que o Nununha sabia o que diziam.

terça-feira, 9 de julho de 2013

“INHO”




Tinha um nome com “inho”. Na verdade não era um nome. Era apelido. Mas era como se fosse.  Ninguém conhecia o outro. Aquele sem o “inho”.  Não sabia se gostava. Não gostava?
Ainda não tinha decidido. Inferioridade ou carinho?  Ou achavam que tinha alguma coisa a ver com feminilidade? O povo começava a colocar um “inho” no final dos nomes e em seguida os “caras” abriam o “jogo”.  Escancaravam.  Mudavam de cor e de lado. Tudo por causa do “inho”.
É. Mas gostava quando a mãe chamava.  Sensação de proteção e carinho. Olha só, lá estava ele novamente.  Começava a desconfiar daquele pedacinho de palavra.
A mãe podia. Mas a gurizada da rua já era sacanagem... tinha alguns nomes que aceitavam legal aquele “inho”. Luíz. Luizinho. Pedro. Pedrinho.  Outros não. O dele era o daqueles. Ficava estranho. Enfraquecia o corpo. O corpo da palavra. Do próprio nome. Tá... deixava mais alegre, mais jovial. Mas quando acentuavam propositalmente o final, aí vinha palhaçada... sacanagem...
Mas e as mulheres? É... elas até que gostavam... e na boca delas até que soava bem aquele maldito “inho”, dava um certo tom de afinidade e prometia certa libidinagem... as palavras são poderosas.
Gostava quando a namorada chamava. Ficava inclusive excitado. Tá... A namorada e as “mulherada” podiam chamar do jeito que quisessem... Mas o encardido do guri filho da vizinha já era sacanagem...
O moleque fazia careta e gritava da porta da casa: “E aí “.......inho?” Uma voz que destilava maldade e maledicência.
Só não chutava a bunda do moleque porque a mãe não deixava: “É só uma criança... não dá bola...” mas o guri era o diabo. “Pô”, até merecia uns tapas. Aquela cara sardenta e desaforada.  Tá... não tinha pai, e podia ser desculpado... mas um pé na bunda não ia traumatizar o capeta...
E o infeliz tinha um nome nada proporcional para o tamanho. Acreditem. Tonhão era o nome do desgraçado. Tonhão! Era por isso que ele tirava “onda” do meu nome. O moleque era um rascunho de gente e tinha um nome que retumbava. E eu tinha um nome que assoviava. Uma vez reclamei pra mãe.  Ela disse que gostava. Não é bonito? Perguntava ela com aqueles olhos grandes de decidir tudo. “É mãe...é bonito...” mas não precisava o “inho”.
“É que você vai ser sempre o meu filhinho...” Sorria ela. Eu levantava e ia pro quarto.  Às vezes o infeliz do Tonhão escrevia o meu nome em um papelão e mostrava na janela. Sacana o guri. Eu apontava o dedo médio para ele. Indicando um lugar determinado. Uma vez a mãe do guri viu o meu movimento de dedo e reclamou para minha mãe. “Atitudes obscenas meu filho?”  as explicações foram longas. E acabaram em um psicólogo. O cara dizia que tudo era bobagem e que era coisa da minha cabeça e essas coisas.  O nome dele era Murilo Aparecido Fontes, mas que eu podia chama-lo de Murilinho.  Só podia ser sacanagem! Olhei pra minha mãe, ela não entendia nada. Levantei e fui embora. 
Vejam bem... não é que eu tenha esses lances de preconceito. Essas coisas de ... ah... cada um tem o direito de escolher as cores de sua bandeira... entenderam... é... é isso. Tá... mas também não é preciso esfregar a “bandeira” na cara das pessoas.
Tá ficando complicado? É... é que é chato. E as pessoas ficavam zoando a gente. E eu sou brabo. Já quero briga. E sei que é burrice. Estupides e essas coisas. Até me arrependo depois. Mas é que é brabo... é muito brabo...
Abandonei o psicólogo, dei desculpa e essas coisas que todo o mundo faz.  Deixei a barba crescer e comecei a fazer cara de malvado. Não “rolou”, e a coisa ficou pior.
Cresci, mudei de cidade, arrumei um emprego legal e acabei com o “inho” do meu nome.  Mas a desgraça me persegue. Depois de vinte anos, estou eu aqui na sala de redação do jornalzinho da minha cidade quando anunciam o novo dono do jornal. Seu Antonio Arruda do Nascimento. O cara entra acompanhado de uma deusa. Mulher linda, loira e extremamente formosa. Os olhos dele caem em mim e eu quase tenho um infarto. Brilham de contentamento. Era o Tonhão.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Acuado




Estaria cansado? Sim,claro. Um estado de lassidão. Imensidão de nada. Caminhar no deserto? Sem água? Quase. Quase o deserto. Talvez a multidão. A desértica multidão. Todos e nada.
Qual a estratégia? Haveria alguma? Estavam acostumados a todas as estratégias, agiam como inimigos. Não que houvesse algo para isso. Mas como um tipo, uma personagem, uma posição. A linha que diferenciava.
Tinha certa pena? Sim, claro. Eram jovens, imaturos, fortes e audazes. Mas imaturos. Quase infantis. Sinceridade que escorria da boca. Alegria que se mesclava perigosamente com indelicadeza. Juventude. Agressividade.
E ele. Velho? Sim. Pare eles. Para eles era um velho. O jovem parece desqualificar tudo que não vibra na sua sintonia, no seu gosto.
E ele? Estava cansado.O discurso as vezes se erguia em busca de recepção. Mas já era só retórica. Rebatido pelo desdém, indiferença, impenetrabilidade.
Ouvir? O ouvir era uma coisa impositiva. Ordem, ameaça. E sofria. Pois na ação empenhada, contrariava sua própria forma de pensar. Mas estavam todos dentro  da estética do rebanho. Da ordenação. A sociedade gostava disso. Alguém ordenando, decidindo, dizendo e definindo. Os outros seguindo. Através de mecanismos disciplinares e corretivos.
Quando acabou. Recolheu o material. O trabalho, o resultado. Eles correram para a rua. Alegres, como se estivessem presos, encarcerados. Como se ele, o velho, fosse o carcereiro de suas liberdades. Era?
O café na mesa. O estofado. A perna cruzada. A conversa dos colegas. A mesma. Sempre a mesma. No mural mais afazeres. Reuniões, trabalhos, notas, documentos e mais...
Na bolsa um livro pulsava. Gostaria de abrir. Ler. Ler ainda era um caminho. Sabia. Pelo menos para ele. Nirvana. Religião.

sábado, 1 de setembro de 2012

Cartografia de um delírio




Primeiro foi o estômago. A necessidade de uma certa saciedade. E o encontro com todos os corpos presos a esta saciedade. Corpos que reduzem os espaços. O restaurante é uma grande estômago. E somos o alimento. Comida. Comendo. Os olhos nem vêem. Mas o calor é sentido. E enquanto caminho equilibrando meu prato de arroz salada e um singular peixe frito, percebo a dificuldade de locomoção do meu corpo que se desvia de cadeiras, mesas, e conversas desinteressantes. A televisão me impõe um jogo de futebol. Mesmo sem querer meus olhos a buscam. Camisas amarelas deslizam em fluxos virtuais. Sento junto ao grupo de amigos, tentamos começar uma conversa. Produzir discursos e dizimar a fome. Um estranho senta em nossa mesa. Jamais teria coragem de fazer isso. Ele come como se não fôssemos ninguém. Não éramos. O sujeito de sua vontade era a fome. O objeto o prato de comida. Seus olhos não buscam nada além. A fome. Estou impaciente. Outras pessoas aguardam com seus pratos fumegantes e suas porções únicas de carne. Estamos no terceiro salão. Há um corredor entre o salão da frente, por onde entramos. Há um sofá velho e a porta da cozinha. A produção do alimento. Não gosto de ver fazerem o que como. Um homem pequeno está no sofá. Parece ler um jornal. Não sei se faz parte dos donos do lugar ou só espera por uma mesa. Estamos sempre esperando... sempre esperando por uma mesa...



Em uma pequena churrasqueira perto do corredor um senhor de aparência germânica prepara um espeto de frango. Na verdade são várias coxas de frango. Ele corta. E rapidamente come um pedaço. Parece estar em casa. Sinto vontade de uma cerveja. Bem gelada. Bebo um gole de refrigerante. O "pessoal" está alegre. Conversa inteligente, coisa de faculdade, projetos. Algumas piadas. Eu insisto para que terminemos logo. Quero sair. Ar. Alguns ficam. Eu e uma colega abandonamos os que comem. Ela busca fogo com um senhor baixo e negro que está escorado em uma porta. Volta satisfeita. O cigarro aceso. Estou cansado. Suado. Logo todo o grupo sai. Abandonar de vez "os que comem" é um alívio para mim. Há um colega que nos re-conduz. Conduzir é uma palavra interessante. Tem uma certa pompa, estilo, "meio que afetado, meio sacerdotal" lembro do poder pastoral em Foucault. Mas não é o momento. Nossos corpos estão comodamente acoplados à lataria e o estofado do carro, e ao motor, e ao som das rodas nas ruas de pedra e ao fluxo dos outros carros e ao tempo que escorre e à distância que diminui. Meu estômago dá o sinal. Meu inimigo. Criança levada que sempre complica o passeio. Finjo não perceber. Finjo não perceber que os outros perceberam. Todos fingimos. E agora estou no banheiro. Escovando os dentes e me olhando. Um rosto no outro. Cuspo a água e saio. Há um trabalho ainda por fazer. Pesquisa de campo. Uma praça. Meus amigos estão no jardim e a conversa é sobre homossexualidade, sexo, liberdade e essas coisas. Tentamos dar um tom inteligente aos nossos comentários, eu tento. Exercício de oratória.

Há uma necessidade de aquecer água. O chimarrão é um apêndice do meu corpo. Mas pesa e as vezes fico com vontade de fingir que o esqueci e abandoná-lo. Nunca faço. E carrego-o por onde ando.

Minha bolsa e o notebook pesam no meu ombro. Mantenho a pose. Agora o blazer também está no braço. O calor é intenso. As conversas dos colegas parecem um som estranho. Sei que estão ali. Reconheço suas vozes, mas estou longe. Caminho observando os corpos e os espaços que eles ocupam. Andam rápido. Sérios. Alguns passam as mãos na barriga. Comeram. Tenho vontade de alisar minha barriga também. Impossível. A mateira na direita e o casaco na esquerda. A bolsa no obro. Tenho que ter equilíbrio. Penso em sentar perto do chafariz. Sombra. Tomar um chimarrão. Descansar. O que me chama atenção de início é o lânguido descanso de dois jovens. Homens. Em um dos bancos que circundam o chafariz. Um está sentado e o outro tem a cabeça no colo do outro. São jovens. Parecem felizes. E minha maldade começa a tecer comentários maldosos. Quero sentar em uma sombra. Mas o sol no momento é senhor. Uma de minhas colegas que encontramos na praça, a praça era o local do encontro de todo o grupo. Pesquisa de mestrado. Começa a fazer anotações, ela parece lhar para a água. Nesta praça existe um pequeno espaço onde algumas tartarugas e peixinhos sobrevivem. Ela é aplicada. Minhas colegas, outra. Notam uma tatuagem que quase salta para fora das costas de uma moça que conversa com um "suposto" namorado. Não me atrevo a olhar mais que alguns segundos para a imagem da carne tatuada. Já não é o caso das minhas colegas que mais tarde discorreriam sobre os prós e contras de fazer uma tatuagem. Ainda lembro de algumas palavras que a professora, lá de sua "torre" próxima à praça dissera. Nosso QG era uma doceria, subíamos algumas escadas para ouvir nossa professora americana. Texas. Estávamos em Pelotas. Eu sou de Pedro Osório. Distâncias, proximidades, encontros. "determinar um foco" . Era para escolher o que ver, o que analisar. Lembro de ter observado pela janela e perceber as pessoas e os carros. O movimento que circundava e penetrava a praça. E também fluía dela para a cidade.

"Os velhos jogavam damas". As palavras tem força. E isso não é meramente uma metáfora. Havia dois tipo de jogos bem definido naquele espaço, ou naquele não-espaço como dizia Bauman. Em um tabuleiro, sentados ou em pé, alguns aposentados se distraiam jogando damas. Estratégia simplória e divertida. Mas em outro tabuleiro, as "damas" se mostravam estrategicamente aos olhos desconfiados e brilhantes de outros aposentados. Percebo que duas delas estão em um banco logo a frente de mim e de meus colegas. Estão discretas comparadas a algumas roupas que algumas meninas da "moda" costumam usar. Não conversam muito. Uma procura uma música no celular, faz esse comentário para a amiga. Percebem que estamos apontando e as observando de forma diferente e nos abandonam.

Eu vago por entre meus amigos que se distribuem na praça. Não aponto nada. Esqueci de trazer papel e caneta. Gostaria de escrever. Tiro a câmera da pasta. As fotos não são boas. Tenho medo de interferir, atrapalhar a privacidade dos outros. Percebo que uma menina que está namorando em um banco nos observa, por alguns segundo eu também a observo. Sou um homem de meia idade, com a cabeça cheia de filmes e livros, ela é bonitinha e não parece ter o mesmo interesse que o namorado lhe devota. Volta e meia ela me olha. Ou olha para todos nós. Somos um organismo estranho na praça. Intimamente prefiro pensar que ela me olha. Faço um carinho no meu ego. Homens de meia idade e casados e comportados frequentemente têm esses arroubos. Ela está curiosa. Eu também. O que ela está pensando? E o namorado que procura um beijo, uma boca e recebe apenas uma bochecha?

Todos os caminhos levam a um centro. Ao chafariz. E todos os corpos caminham para perto ou para longe dele. Um homem de chinelos e com um curativo no braço enfia as mãos na água , lava o rosto e molha o cabelo. Alisar o cabelo. Limpar o corpo. Sai satisfeito. Os velhos procuram o banheiro. E o banheiro fede. Meus amigos analisam a situação. Quantos entram, quantos saem. Eu entro. Pedem que tire uma fotografia. Mictório imundo. Vaso imundo. O papel não é higiênico. Ó que limpa são os panfletos das lojas. Estes estão sujos e amontoados em um cesto também imundo. "grevistas" é a palavra que se encontra escrita em uma porta cor de laranja. No canto logo à saída uma vassoura dentro de um balde verde. A promessa de algum tipo de limpeza ainda por vir.

Depois são os livros. Encontro com uma colega que me diz saber de dois sebos ao redor da praça. Me empolgo. Livro é uma coisa que me excita. Penso em uma cerveja gelada. Desta vez não digo. Bebo a cerveja mentalmente. O primeiro sebo está em construção. Os livros estão no chão. Poucos. Didáticos. Me decepciono. Algumas quinquilharias. O tempo passado abrindo brechas no presente. O outro é organizado, livros enfileirados. Não gosto. Muita ordem. Voltamos à praça. Duas senhoras atravessam o não-lugar. Uma delas é surpreendente. Vestido branco. Salto alto e fino. Cisne que desliza... mas é deselegante e feia. Tenho pena de tanto branco. Ofusca.

Meus colegas comentam sobre as "divisões" da praça. Onde ficam as prostitutas. Fico pensando se a palavra "prostituta" não é mais feia que "puta". Fico na dúvida. Uma é institucional, a outra é do povo.

Dentro da praça. No corpo da praça. Várias pessoas tomam chimarrão. Os rostos são mais calmos e descontraídos. Ao sair da praça assumem suas máscaras. Os passos dobram de velocidade. Mas são outros. Nunca são os mesmo. Rio de Heráclito.

Agora a praça está tomada por jovens. Bem no centro. Junto ao chafariz. Turmas, gangues, grupos. Poucos estão ali sozinhos. Os que estão só. Caminham para longe da solidão.

Há também um artista interessante. Chapéu estranho. Chega de bicicleta e declama/canta seus versos estranhos e críticos. Excentricidade. Mais um produto?

É hora de ir. Ainda lembro do homem que atravessou os canteiros e cumprimentou as duas prostitutas que estavam perto de nós. Da mulher que empurrava o carrinho de nenê. Das três moças levemente obesas que tomavam mate quando chegamos. Do senhor "aposentado" todo velho parece um aposentado aqui. Nessa praça. E da rapadura que retirou do pote de plástico.

Lembro do fluxo intenso de corpos que mudavam de lugar e se locomoviam pelos possibilidades da praça. Lembro da minha colega simulando uma prostituta ao se afastar para fumar. Do outro colega que mesmo concentrado em suas tarefas de pesquisador, ainda arranjava tempo para tratar de negócios pelo telefone.

Minha parte no relato da pesquisa foi mostrar as fotos do banheiro masculino para o grupo e para a professora. Minha amiga deu conta de relatar as andanças do povo pela praça.

Escapuli. Minha casa era o objetivo e desejo. Mais que a cerveja gelada. Na parada percebia o movimento intenso dos ônibus. O semblante carregado das pessoas que buscavam as linhas certas para os espaços certos. Uma cadeirante esperava o ônibus. Um sentimento de impotência me tomou. Queria fazer alguma coisa. Ajudar de alguma forma. Todos queremos ser heróis. Fiquei estático. O primeiro ônibus não pode levá-la, a estrutura do ônibus não permitia a entrada da cadeira de rodas. Mas o motorista foi solícito ajudou a moça a entrar em outro. Este com arranjos para a cadeira. Me senti um idióta.

Minha idiotice se desvaneceu quando percebi a tatuagem que adornava as costas de uma menina que supus já ter sido minha aluna. Conjeturei muitas coisas. Colorida tatuagem que espiava por entre uma calça apertada e uma blusa que teimava em encolher. Era boa aluna. Lembro. Não me reconheceu ou fez que não me reconheceu. Aceitei. Reconhecemos quem queremos... entrei no ônibus. E encontrei outro professor da mina cidade. Ele sorriu e disse: "do coração eu não morro." Um exame médico entre as mãos.

Nesse mundo de velocidades intensas, um check up é indispensável.

Ainda lembro da informação da mulher no restaurante: "Você tem direito a só um pedaço de carne."

Eu poderia escolher entre galinha, peixe e gado.

Espetei um pedaço de peixe... fácil e rápido de digerir.

Na rodoviária. No banheiro. No espelho. Meu rosto perplexo.

As torneiras não tinham água.