terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Educação e cultura

Com Adorno – Educação e cultura (1)
Ronie Von Rosa Martins



Theodor W. Adorno dizia que um dos objetivos da educação seria o de se opor a crescente violência e barbárie em que o ser humano desavisadamente se encontrava. Marcado pelo horrores de Auschwits, Adorno via na educação uma das formas de resistir à barbárie.
No entanto o que se percebe na educação brasileira não tem nada a ver com essa idéia inicial. A educação não visa a formação do indivíduo como um ser humano autônomo e democrático. As instituições escolares apenas resistem ao tempo, mantendo as mesmas tradições e verdades que erigiram a sociedade do jeito que ela é.
Adorno critica nos seus escritos a transformação da escola em indústria, empreendimento comercial. O autor não vê como um pensamento administrativo e burocrático possa servir para emancipar o sujeito e transformar o estudante e o cidadão em criaturas melhores. Pelo contrário, percebe através destas dois pensamentos formas de reduzir a própria educação em mercadoria, facilitando dessa forma uma educação “mais ou menos”, para as massas. Ou péssima, se formos um pouco mais radicais.
O aluno se vê seqüestrado pelas organizações do espaço e dos tempos escolares, é seccionado pela organização das disciplinas e conteúdos e é seduzido a se diluir num aparato cada vez mais tecnológico a fim de estar e ser como todos os outros. Buscar o seu lugar ao sol. Mesmo que para isso tenha que bater em alguém. “cotoveladas” diria Adorno.
A escola promove a competição em detrimento do companheirismo e da solidariedade, lembrada apenas em datas marcadas na folhinha. Não há um movimento dentro da educação para fazer pensar a educação, mas sim em cumprir o que é e está.
O professor, profissional que deveria por sua condição de intelectual e pensador, promover debates e questionamentos sobre a sociedade a fim de buscar melhorias através de um pensamento que criasse opções e novos caminhos, se vê automatizado e prisioneiro de sua limitação, tanto econômica quanto cultural, e apenas ecoa o grande discurso dos que estão no poder.
Como falar de violência em sala de aula, se o próprio aluno é tratado como se fosse um prisioneiro? Para não dizer do próprio professor, amedrontado pelo dedo fascista de um discurso tecnicista e castrador?
O que pensar de uma escola que obriga o aluno a pedir a chave do banheiro publicamente para poder se aliviar. O carcereiro olha para o infeliz e diz: Não demora!
A barbárie não está só em Auschwits, e se esta mesma escola não consegue fazer seus alunos “aprenderem” a ir no banheiro sem destruí-lo, o que se espera que os alunos aprendam?
Há uma visão antiquada que reduz a instituição educacional, com todos os seres que a habitam em mero braço da força e do discurso tradicional que procura manter tudo do jeito que sempre foi.
A violência, de todas as formas, se origina da necessidade que o homem tem em controlar o medo e na conseqüente necessidade de dominar. E a educação não questiona nem argumenta contra isso. Pior, incita na alma dos estudantes o egoísmo e essa necessidade de dominação. A formação não é mais vista como uma forma de singularização do indivíduo e como um caminho para melhor compreender o mundo e interferir positivamente nele, mas sim como uma forma de “encarecer” uma mercadoria. Cada vez mais o homem busca “formação”, não como forma de melhorar como homem, mas apenas para se promover e valorizar o produto. Ele mesmo.
A escola e a educação são violentadas por visões que não vêem a educação, mas o que ela pode lhes dar em troca; dinheiro, poder político, status social. E a educação não tem voz. Sofre de bullying nas mãos de outros interesses.
A educação, deveria pelo menos, denunciar essa “pseudoformação” como diria Adorno, apontar as condições que a geram, mas o que vemos são discursos que procuram reduzir esse fato histórico e social em atributos de responsabilidade individual.
A escola é meramente um lugar para “docilizar” o indivíduo, fazer com que perceba que é só mais uma engrenagem da máquina. Apêndice do organismo estatal.
Enquanto isso, o menininho nervoso levanta de sua cadeira, ergue a mão trêmulo: “Posso ir ao banheiro fessora?” Se a professora está de “boas”, permite que a criança saia... ela atravessa o espaço da escola e chega na secretaria. Várias pessoas conversam: - A chave do banheiro? Ele abana afirmativamente a cabeça. Alguém procura em uma gaveta uma chave...
A educação é isso. Uma prisão, e toda hora alguém se ajoelha pedindo uma chave...
É... Educação após Auschwits...

Conflitos - sem verbos

Ronie Von Martins


Dois. Homens. Um. Barba grande, rosto vermelho. Nariz também. Olhos brilhantes. O outro magro. Rosto comprido e pelado. Pouco cabelo. Dentes trincados. No ar as ofensas. Um olho dentro do outro. Cruzamentos de ódio. Movimentos ao redor. Estudo do corpo. Dança. O momento do soco. A mão. Punho serrado e duro. O lábio em explosão. Sangue. Gotas na camiseta. Na boca. Novamente o punho. Baixo. A barriga. Um urro. O salto e o abraço. No chão os corpos. Rolo compressor de carne. Braços e pernas sem corpo. Invenção do movimento na fúria.

Na rua a observação silenciosa do cão. O cheiro do sangue nas narinas, a tensão da luta no movimento arisco do animal. O espectador.

As palavras terríveis. Projéteis mortais. Cusparradas de verbo. Setas envenenadas. E o joelho em movimento simétrico. E o queixo. E a dor. E a tontura. A barba e o sangue. A cabeçada. Os dentes fora da boca. Mais sangue. Mais dor.

O animal e sua distância. O tombo. O chute. O pé no ar. A luz e a escuridão. A luz...a escuridão. O corpo. O giro para a esquerda. A perna presa, o outro tombo. Mais socos.
Já não um rosto. Só a dor e carne. Em exposição. A vergonha. O insulto. A honra.

O cansaço e sua soberaria. O ofegar além do corpo. O tropeçar em si mesmo. A oscilação da perna. O outro. O corpo em teimosia. Erguido. Braços para a luta. Punhos cerrados. Meio termo? Não.

Primeiro o grito, depois a mulher. Lágrimas abundantes. O afogar do arrependimento e da vergonha. O descuido. A mão feroz no rosto, o murro animalesco. A agressão final.
O abandono do corpo. O silêncio. O surdo som do corpo em último tombo. A distância do outro. Passos... tempo. O corpo e a ausência. A rua.

Os beijos carinhosos. Os sussurros e lamúrias. Desculpas imploradas, corpo embalado. Canção de amor. Palavras afogadas na dor.

Uma sirene e a ambulância. Curiosos. Perguntas. Motivos. Explicações.

Amores, traições, vingança, dívidas, bebida, jogo...

Só a rua agora... E o cão.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

lobo

LOBO
Ronie Von Rosa Martins


Todas as prisões são o corpo. A limitação do corpo. O espaço delimitado do corpo. A carne o osso e o passo tímido da perna exata.
A prisão é a cama a peça e a casa. A cerca e o espaço que te traça.
Nos livros as traças. Letras e mais letras, palavras, verbos, versos, universos. Mesmo assim preso. Mesmo assim refém das limitações da carne sua.
Sobre a mesa o espesso volume. Moby Dick. Ahab. O oceano.
Civilizado. Docilizado. Afrouxou a gravata. Forca estética de várias cores e tecidos.
O respirar do corpo além do nó.
O copo de uísque pela metade. Dois icebergs flutuando. O degelo. O gelo.
Rasgam o tédio, a moral, as normas, as ordens. O real.
Um sorriso se desenha em lábios que não sorriem. Mais. O álcool é o segredo para o outro mundo. Dimensão outra. Imensidão.
O corpo aperta uma tecla e Nei Lisboa canta só para ele : “Seremos sempre assim, sempre que precisar. Seremos sempre quem teve coragem. De errar pelo caminho e de encontrar saída. No céu do labirinto que é pensar a vida. E que sempre vai passar por aí”

Pensar a vida. Errar pelo caminho...
Os passos levam o corpo à janela. O vidro proíbe o ar. A visão é através, filtrada, controlada. Os olhos da casa. Não olham para fora; mas para dentro.
Há ninguém. Todos que não estão. Memórias. Imagens. Rostos. Ações. Tudo perdido nos jorros de tempo de Cronos.

Civilização. Ao final do braço a mão e seus dedos. Unhas aparadas e polidas. Mão enfraquecida. Braço cansado. Os pés cobertos por objetos de couro. Lustrosos e macios. O pé?
Sentado desamarra o sapato. A meia escura. Agora a visão do pé. Todos os dedos. Sorri. Não é sempre que observa o próprio pé. Meche os dedos. Boa sensação. Um pé esbranquiçado, sem vida. Sem cor. Ao lado o sapato observa, guarda, vigia. Pronto para enclausurar novamente. Proteger, cuidar, colocar o pé ao lado de tantos outros. Calçados.

Eles voam. Primeiro um. Depois o esquerdo. Na rua já escura estatelam-se. Srão os pés de um mendigo qualquer. Um homem que mendiga passos certos e exatos.

A casa está surpresa. Em silêncio. Presente algo. As paredes vibram silenciosas. Portas e janelas estão anciosas e asustadas. Então a casa oferece o quarto, cama grande e macia, ar condicionado, televisão; seduzir. É o que o carcereiro pensa. Seduzir o homem. Não? Ainda não? A cozinha. Geladeira repleta; queijo fatiado, presunto, galinha, yogurtes, cremes, doces, bebidas... não?

A água lava o corpo em rios. Rios que escorrem pela carne. Pelo rosto. Não? São lágrimas? Salgadas?

Nu. Assopra as luzes. A escuridão. Do outro lado a noite. A casa já não tem poderes. As paredes são apenas ilusões. As narinas buscam todos os odores. Todos os cheiros que se mesclam confundem. Os olhos dilatam-se. Buscando nas distãncias aquilo que não se vê. A casa não é mais nada.

E a noite clama. A noite chama. E então é ela. Só. Redonda. Brilhante. Ele pensa na vida. Pensa nos sapatos. Nas portas. Nas roupas. Nas palavras doces, nas regras, nos detalhes... pensa nas filas, no cheiro de fumaça... e vomita. Vomita sua civilidade. Pela garganta. Pedaços de uma vida em pedaços.

E ele urra. E uiva. E salta. A fúria é o caminho. O desatino. E atravessa o vidro que corta. E o sangue que escorre. O cheiro, o gosto da vida.

Do outro lado da casa a noite o apara, o acolhe. E ele corre. Pernas que não são as mesmas. Coração outro. Força que invade cada célula, cada molécula.
Selvagem. Entre os carros. As pontes. Os homens. O medo, o susto. O pânico.
Fera. Suor. Escorrendo abundante, expurgando todos os medos, todos os anseios. Musculatura que salta sobre cercas. Se lança sobre árvores, arbustos. Prazer animal. A terra no pé, o vento pelas narinas, os olhos engolindo tudo, devorando toda uma vida que passa. O campo. As árvores. A mata. O uivo. O grito. A fúria se espandindo sonoramente como uma onda que vai arrasando tudo e todos. Depois o silêncio. Depois os comentários. Depois a versão oficial, depois a mentira. Depois o exagero, depois a lenda. Depois o tempo. Depois as calçadas. Depois os prédios. Depois o aço e o vidro, depois... depois ...