sábado, 26 de dezembro de 2009

profundidades epidérmicas

A PELE OU A CARNE OU O CORPO; OU NENHUM DELES



O corpanzil delimitado
Peso medida espaço
Espesso volume
Extenso cardume de “eus”
Armários de almas
Caixote de rostos
Gaveta de faces

Pedaços inteiros de todos
Tolos delírios do “uno”
Vômito de Cronos
Massa.

De imitado corpo anil
Céu e pretendido mar
No meio... o meio

O marejar, marestar, marandar
Navegar na carne
Além da carne; estar
Na pele o meio

Mais profundo
Abismo
Epidérmico.


Ronie Von Rosa Martins

Comer: da arte de dizer a comida ao fato de fazê-la ser além da comida; verbo

Comer: da arte de dizer a comida ao fato de fazê-la ser além da comida; verbo





Colherei o grão da minha angústia
Plantarei árvores de abismos
Raízes distantes em tempo espaço e discursos
Mastigarei-as
Em danças caóticas de peiote e
Explodirei meu corpo em tantos e vários outros
Grãos.

E em cada vão.
Em cada frincha, fresta
Produzir a festa da não-razão
E os loucos todos convidar

A grande festa do meu devaneio; nosso
No fosso raso da minha verve
Redigir em palavra ilegível
Em gramática do delírio
Todo pergaminho que se perde
Na impossibilidade da língua

Com a língua
Lamber salivante a régia flor
Das certezas claras
Lambuzar os corpos
Exatos e enxutos de todo discurso hermético

Herético, dançar nos altares a ingenuidade da história
Beber todos os líquidos sagrados
Devorar na carne toda a carne sacra
Todas as páginas místicas
Palavra por palavra

Pantagruel empanturrado; Artaud explodindo
Corpo e loucura, mente e moral
E alterar o verbo e a verve
O fluxo e o curso
De qualquer, breve
E profundo pensar.


Ronie Von Rosa Martins

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

PEDRO

Ronie Von Rosa Martins

Entre as mãos, pressionado pela estrutura física da carne, do osso que sustenta, mas também oprime por também ser obstáculo, peso, parede. Pulsava(?) prisioneiro do próprio corpo engendrado para si. O cérebro.
Nas mãos encharcadas, embebidas no suor das têmporas-nectar das dúvidas e angústias, ele sentia, percebia a aflição de seu intelecto comprimido...
Paredes... tudo eram paredes. Da carne ao tijolo. Tudo que prendia e resumia. Reduzia. Tudo eram paredes. Suas paredes.
Na escuridão circunstancial do não olhar, ele percebia os vultos negros das nuanças da própria sombra que o envolvia e invadia. Possuído pelo demônio da dependência, filho maldito do torpor... atrelado estava à rima simplória, mas vital, da batida cardíaca.
Talvez se abrisse os olhos e enfrentasse além do seu rosto/máscara de carne velha e dissimulada –sua essência, sentido/alma que de tão profunda jamais conhecera. Talvez na pele? Capacidade de se compreender?
Mas o cérebro. Abraçado ao frágil coração gritava-lhe do cárcere onde se encontrava que compreender a si mesmo era coisa de coragem, de desprendimento. E eles eram fracos, débeis na sua condição retórica. Voláteis.
E a umidade das mãos agora ficava mais amarga, pois o fel de sua alma deslisava silenciosamente por sua pele.
Quanto tempo fazia? Quarenta voltas os ponteiros indiferentes da morte já haviam dado ao redor de sua cabeça?
Sair. Levantar.
Tentava sem sucesso tais ordem ao prisioneiro conformado que se distanciava em uma valsa insensata de antigas e novas imagens-reais-ilusórias, de frases ditas e outras nunca mencionadas. Não havia resgate para o encarcerado que se implodia em incoerências. A razão é coerente?
Entre os dedos da mão escorria sua sanidade, fluindo para o esgoto/desgosto? Toda sua capacidade de percepção. Fronteiras ruíam.
E as dias mão que seguravam, agora chacavam-se débeis, delirantes. Surdo aplauso seco. Único. Ploft.
E ser já não era, agora, o que se fora outrora.
Então abriu os olhos. No aço do espelho seus olhos do outro o fitaram. De quem eram aqueles olhos cravados na sua carne. Aquela carne moldada em seu idêntico rosto?
De quem era o organismo tecido em seu espelho?
O que era aquele corpo que na realidade do espelho, na “verdade” do reflexo se escrevia, se inscrevia em seu texto. sem nome e em desalinho?
Na antítese que se instaurava se criara; e na mesma intensidade em que em volume, massa e peso se gerava, também pelo olho - no aço que o encarava – tão simples fácil se rendia. No leito estranho do desespero se permitia outro sono de falácias. Sonhos?
Do outro lado da porta. Sons.
Porta? Lado?
Espalmada a mão na parede fria. Realidade instaurada na solidez do prédio.
A mesma parede que esmaga também protege. O espelho sorriu. A carne ficou indiferente, intacta na ruptura interna da estrutura que se partia.
Qual porta estava fechada? a porta da lúcida madeira? Que se abria de súbito unindo dimensões fantásticas de todos os desatinos.
Estava nu. Desprovido dos panos. Encobrir as vergonhas. Nesta constatação eventual a carne se abriu em gargalhada infindável entre o espaço do aço do espelho e o reflexo da corpo. Carne entre o corpo de espelho e o reflexo do corpo.
Silêncio!
Sérios se olharam – decrépitos ambos.
No ar do olho que se encherga dentro do seu mesmo olho, cicatriza o distante; mesmo que no próximo olho que se vê diante, já se perca no profundo espaço do que já fora antes.
No piscar de ambos que se defrontam o que se alcança são só molduras...
Casado. Não está preso. Casado. Aliança no dedo. Dinheiro eroupa não.
Onde a sombra que se pretende homem? Na escuridão deste apodrecer?
Corpo ereto. Alto. Esguio, curvo. Respira a densidade negra que o emoldura. Pretende um grito. Forte, sacro/santo, mas e voz de onde?
Cadê palavras nessa boca murcha que se costura. Onde atitude nessa massa pálida que se constitui?
Onde a sintaxe da texitura deste verbo que não se estrutura. Dessa frase que não se coaduna. Cadê a palavra que neste deserto subserviente se abandona?
Noolho do teu olho no reflexo do teu despojo, no cérebro preso ao osso que o protege; congelas num segundo o tempo que te engendra; do materno exílio ao parto onde te encontras. Olho no olho no olho do teu próprio olho... Infindavelmente. Nesse espelho que não existe. Deste quarto que não desistes. Neste berro que ecoa.
A mão cansada que no movimento se afoga na densa massa que te engole – escuro – onde tudo se confunde. Vago fundo do teu quarto nu. A chave solta pende morta no fio que a conduz a luz.
E no passo que teu peso grita noutro espaço teu corpo afunda. No além da porta-luz.
Luz que te agride o corpo que reduz.
Pardais cinzentos em bandos te observam através do vidro da parede. No muro que individualiza, singulariza os espaços do mesmo. Delimitam os passos de cada um.
Abertos os vidros que iludem com as imagens das coisas. Respiras a terra.
Tudo é terra.
Vestindo as roupas, vestia também seu nome. Novamente recriado a personagem para o dia. Pedro. Pedra que se submete ao formão e ao martelo do escultor. Ao martelo.
A cada amanhecer recriava-se novamente a entidade Pedro. Vestido como Pedro. Pensando como Pedro, agindo como Pedro. Falando. Só lhe era permitido ser o não-pedro à noite e só. Quando despia-se do rótulo que o algemava ao ícone Pedro. Mas nem isso entendia.
Pedro Salinas. Pedra de sal. Desmanchava na singularidade coletiva de todos. Que também se resumiam.
Em um passo de tempo em que sua forma, imagem e sombra traça, mente, cérebro se afastam. Foge, mas em vão não encontra alma alguma. Corpo e carne e osso que sustenta o vulto já bastam, fartam... então parte.
Mesmo sendo pedra consegue ser mais ausência.
Massa de anti-matéria que perambula pelo universo. De qualquer folha o verso. Não o que canta a dor e a idolatra, mas sim as costas. O resto de qualquer escritura. Sepultura?

Findo o trabalho. Traz sua bunda magra e ossuda para o assento gasto da poltrona que lhe abraça. Engole e consome.
Click. E faz-se a luz. De volta.
O calo.
Não fala.
Nada diz.
Calado retira o sapato.
Na térmica ainda água.
O mate?
Morto. Todos os sonhos.
Sorve toda a amargura.
O calo lateja em sua profunda e singular sintonia.
Retira a meia. Entre o dedinho e o outro. Sem emoção. Com as unhas...
Arrancado, desmembrado o inimigo. Tinge o dedo o sangue, também o pé e o chão.
Vai chover?
Quanto mesmo? Quarenta?
Levanta-se.
É preciso fazer alguma coisa.

De homens e dúvidas

Um homem. Sempre é uma prisão dele mesmo. Acredita ser um, uno; e é tantos e vários. E não entende. E nos moldamos ao que não somos. Para ser...
Custamos a entender que tudo isso nada mais é que formatação. Somos formatados e nos condicionamos em determinado grupo, neste ou naquele lugar. Mas precisamos disso. O que é pior. O ser humano tem a necessidade terrível de fazer parte. E somos trabalhados desde pequenos a nos posicionarmos para este ou aquele lado. Todos os discursos que nos constituem são produtos de condições circunstanciais. Família, escola, amigos, região, partido político, mídia... somos uma constituição de vontades outras. Discursos outros. E isso tudo é tão bem amalgamado em nossa carne e espírito, que acreditamos na singularidade de nossas vozes, de nossa forma de pensar. Quando não passamos de meros ecos dentre os discursos.
Antonin Artaud em sua sábia loucura falava em “explodir” esse corpo organizado previamente afim de conseguirmos ver e sentir quem realmente somos. O que somos?
Ele estava certo. Gostaria de me “descascar” infinitamente, como uma cebola e ver no que dava. Como um texto já lido por tantas vezes cheio de jargões que é definitivamente apagado. Uma borracha apagando palavra por palavra daquilo que nos “disseram” que éramos.
Afogar este “eu” cartesiano num balde de água fria e fazer com que liberte os tantos outros “eus” que habitam nossa existência. Quantos somos?
Protegemos-nos tanto em paredes que já não distinguimos nossa carne. Somos sempre paredes. E nos escondemos das possibilidades outras e várias que surgem.
Ao abrirmos a boca. A tecla play de nosso gravador é acionada, e nos entediamos a ouvir as mesmas coisas que sempre dizemos. Achando que aquela “palavra” é singular e única. Minha palavra. E o pior. Acreditamos sem questionar. Sem enfrentar. É assim. Ponto. Aceitação.
Docilidade. Uma das palavras de Foucault. Docilizaram nossa alma, nosso corpo, e acreditamos que isso era bom. Inventaram o pecado e nos disseram que éramos todos culpados e que deveríamos sofrer. E ficamos felizes em sofrer.
Nossa cara é a mesma cara. A mesma cara de todos. Todos com a mesma cara, o mesmo rosto. Nos olhamos nos outros sem nos vermos... Nem ao outro. Máscaras.
Eterno carnaval. Pior. Pois não há a espontaneidade nem a embriagues que de certa forma libera o corpo e a alma. E nos abraçamos em nossos muros, em nossas paredes. Um eterno afastar-se. Um eterno proteger-se. Todos escondidos na pele, na carne, no mesmo rosto que não vê.
Como os detritos dos esgotos, flutuamos (a maioria) nas águas lamacentas do senso comum, da doxa. E acreditamos piamente estarmos certos. É assim. E assim será. Será?
Deleuze já falava em pensar o pensamento, questionar o que se pensa, a forma que se pensa... E duvidar. Não duvidar para negar. Mas para “talvez” acreditar? Não falo em niilismo, negação... falo simplesmente em pensar o que se pensa e porque se pensa dessa forma e não da outra. O que nos faz acreditar nisso e não naquilo.
E entender que o pensar é livre, não deve se agrilhoar à religião, política, cultura ou grupos, pensar está além da região ou dos espaços que resumem e determinam o pensamento. O pensamento não é escravo de doutrinas ou moral alguma. E não devemos (creio eu) usa-lo para confirmar conceitos pré-definidos e ideologias estabelecidas, pois dessa forma o usamos “como escravo” para defender e “justificar” o que deve ser questionado. Se penso para receber uma resposta que me agrada, não estou pensando, estou meramente elencando argumentos para comprovar a “opinião”. Minha opinião. E a opinião é fruto de vozes ambíguas, seqüestradas por sentimentos de raça, religião, território, poder, vontade e prazer.
O pensamento não é “opinião”. Definitivamente. A opinião é meramente a máscara, decorada com os vários textos e discursos que nos compõem. Eco.

Ronie Von Martins

UM BRANCO

UM BRANCO
Ronie Von Rosa Martins


Pasma
A caneta afasta o bico
do papel.
E a folha que se faz deserta
Faz-se falha.
A mão
Que o objeto prende
Na sua ânsia treme.
Angustia de não ser falha
E na folha cicatrizar o verbo
A beleza da nossa fala.

Silêncio!!!

Descansa lívida e pálida a folha enorme!
Treme a mão e a caneta dorme.
Neste momento;
Neste tormento que o ponteiro mostra.

E o grito e a noite...
E os passos que distante vão?

Minha mão repleta
De um profundo não.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Orqueta-2008

O GUARDA-CHUVA

O guarda-chuva
Ronie Von Martins

Contam os mais antigos - normalmente cercados pelos olhos arregalados das crianças da família e com certeza diante da lareira nos dias frios e chuvosos do inverno - a história do tal guarda-chuva.
Era noite, na rua somente o silêncio e o medo. E ele, o homem. Grande capote preto. A garoa molhava seu rosto lentamente. Pois dizem que este homem, que voltava pra casa... E aqui não contam o que fazia fora de casa; perdido na chuva, trilhava pelas ruas da então jovem cidade de Pedro Osório, mais especificamente na Rua das Flores.
O cérebro conjeturando sobre os afazeres da vida e os prazeres e dissabores da existência. Sombra fraca e trêmula presa aos pés, pouca iluminação na rua.
Nesta época contam que a escuridão era soberana. E o medo também.
Pois bem, foi neste dia que ele voltava pra casa, mãos no bolso e cabeça nas nuvens, que tudo aconteceu. E depois dele, muitos outros também viram. E o que aqui conto é o relato que venho ouvindo de geração em geração nas rodas de conversa da minha família.
Sozinho com seus problemas, absorto em seus pensamentos, ele não percebeu o outro. Não tinha visto nem de onde e nem quando. Só sabia que ali estava.
Homem acostumado a não se assustar por pouca coisa - “matou” um arrepio que lhe subia pelas costas no peito e seguiu.
O outro homem portava um enorme guarda-chuva negro, grande morcego que se movimentava de acordo com o movimento dos passos da pessoa que o retinha.
E um frio antes não percebido começou a se fazer presente. Um frio que começava a invadir os ossos dele; acreditava ser a chuva. Estava molhado e um início de resfriado se insinuava... Febre?
Já caminhara – pelos seus cálculos – muitos metros, mas mesmo assim não chegava nunca em sua casa. O guarda-chuva sempre na frente. Silêncio mortal. Pesado. Nem os cães nem os gatos davam discurso na noite. Só os passos. Os passos dele.
Ficou intrigado. Estavam próximos, mas só ouvia os seus passos, não conseguia ouvir os passos do outro homem.
Tentou ver os pés. Mas a escuridão não permitia silhuetas, só a imaginação delimitava formas.
O coração dele começou a bater mais forte, e algo começou a zombar de sua coragem bem lá dentro do seu peito.
Neste momento já estava empapado de água da chuva, resolveu tirar tudo a limpo e enfrentar o homem que caminhava rapidamente a sua frente. Correu até ele e estancou na sua frente.
O mundo parou. Os relógios trancaram no horário que ali afirmava aquele bizarro encontro.
Sob o guarda chuva não havia ninguém, apenas a escuridão da noite. A parte mais escura, o espaço de todos os medos, o vazio de todos os silêncios e o silêncio de todos os gritos.
Medo. Dúvida. Temor. A rua de repente tornou-se negra como o breu, todas as luzes se apagaram e ele foi tragado pelo desespero.
Com dificuldade conseguiu afastar-se, e tropeçando e chocando-se pelas paredes das casas se pôs a correr o mais rápido que podia. Só que o guarda-chuva, inspirado pelo seu pavor, também lhe perseguia, em silêncio.
Corrida silenciosa e ofegante pelas Rua das Flores. Chegou em casa pálido como a morte. A mulher não conseguia entender nada. Nem ele.

Uma rua nunca é “só” uma rua

Uma rua nunca é “só” uma rua
Ronie Von Martins

Uma rua nunca é “só” uma rua. Uma rua é um mundo inteiro. E é neste mundo, novo mundo de casas que se olham e de pátios que se tocam que abrimos nossos olhos e estendemos nossos passos. Um passo nunca é “apenas” um passo. Assim como a rua, o passo também é mágico.
Penso nas ruas que se delineiam em minha memória. Casas que ainda me sussurram segredos. Cores antigas que ainda alegram as visões das minhas infância.
E ali. Nas ruas onde meus passos se inscrevem, ainda vejo as pessoas que mais ninguém vê. São minhas, também as pessoas, pois habitam minha memória, e o perfil que delas traço são únicos. Linhas tênues de suas existências que me olham das sombras, das janelas antigas; sob as árvores...
Vejo-me ali. Criança. Distante destes tempos que configuraram minha carne, meu corpo e minha palavra. Era apenas um “guri”, e minhas preocupações eram “caçar” Maria-gorda na valeta logo depois dos trilhos. Brincar de “pescar bonecos de plástico” com minha irmã e comer amoras em cima da amoreira, um Tarzan invadia meus pensamentos de “mandinho”, como os mais velhos me chamavam na escola.
Mágica. De uma sonoridade férrea, a rua se enchia do fluxo do ferro e das velocidades dos homens e dos trens que coabitavam e que amalgamavam. Homens de ferro, trilhos de carne, esperanças sinuosas como as linhas dos trilhos. O ferro era como o sangue que dava vida a minha rua e aos homens que nela pulsavam.
Ainda vejo um pai, sentado juntamente com outros tantos pais, em um trole, impulsionando o pequeno veículo com os pés. Deslizando pelos trilhos das alegrias infantis a descerem seus “ranchos”, mulheres sorrindo, crianças tagarelas e cachorros.
Vários cachorros... na minha infância não havia “cães”. E todo guri tinha um cachorro, e todo cachorro tinha no seu guri o melhor amigo do mundo. E na minha infância não havia o crescer, o trabalhar... estudar era uma imposição. “pra ser alguém na vida”... mas nós, as crianças já éramos tudo que queríamos ser. Éramos alegria, empolgação e imaginação.
As pequenas “calçadinhas” de nossas casas eram verdadeiras poltronas para as nossas conversas e risadas; que eram interrompidas pelos gritos das mães chamando para o banho e para a janta.
E antes de dormir, respirávamos as casas, os trilhos, os jogos, os amigos. Inflávamos os pulmões do ar mágico de nossa rua e nos rendíamos ao sono, que nos surpreendia sempre sorrindo.
E as vozes das casas diminuíam, os trilhos e suas velocidades e seus movimentos e seus caminhos todos, de repente se aninhavam ao nosso redor para cantar algumas antigas canções de dormir.
E nossas mães desligavam nossas ruas com a promessa de re-ligálas totalmente no outro dia.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

NA RUA

NA RUA

Ronie Martins

Um carro.Mais. Outro carro. Tantos. Pessoas várias. Uma. Duas. Todas. Rua. Uma e muitas. Intersecção. Curvas. Becos. Olhos. Dois. Diversos. Um silêncio; não. O som. O barulho, o ruído. Burburinho. Passos, pássaros? Improvável. Tolerável o contato. Corpo. Corpos. Desvios, choques. Odores. Suores. Braços. Movimentos... segmentos. Movimento e pausa. Continuidade. Continuação. O contínuo da ação. A palavra. Na boca. Na placa. No rádio. O discurso. A intenção. A sujeição. A imposição. O vidro e o cimento. Túmulo? Da donzela? Do conto das antigas fadas? Vitrine. Desejo e consumação. Angústia. Inveja. Prazer e frustração. Cansaços em degrade. Desilusão em várias nuance. Velocidade. Objetivo. Chegar. Ir e chegar... se der voltar... Voltar da rua. Dos caminhos tantos que não são nossos e também o são. O cão que perambula. O olfato atento. O homem, o flato nauseabundo. O odor do corpo e da rua. O corpo da rua e seu odor. A dor da rua e sua náusea. O cão. Pela mão a menina. Preso o corpo. A imaginação flutuante. Devora vitrines. Brinquedos e roupas, doces e salgados. Sonhos. Os sonhos da rua devoram-nos. Todos. Caminhar. Uma perna após a outra. Mover todas as instancias da carne. Produzir o movimento... Ir... Vir... Na rua que se perde sob os pés e cabeças e corpos e odores e presentes e dívidas e sorrisos e tristezas o pássaro voa. Distante. Há silêncio nas alturas de sua rua? Vastos e escassas carnes desfilam seus panos. Coloridos e estigmatizados com suas grifes. Estimativas de um valor hipotético. Virtual? Ondulantes carnes se oferecem, outras agridem, afrontam, zombam. Outras, sentadas em propícios ambientes, devoram cadáveres alegremente e bebem água, refrigerantes, café, cerveja e cachaça. Sóbrios começam a caminhada, alguns corpos... ébrios e tontos chegam... ou nunca. A rua é língua. Lascívia. Um olho que passa encontra outro e se encontram os corpos e se aproximam as vidas e se edificam histórias e memórias e famílias e lendas e mais corpos... para a rua. Entro no ônibus e fecho os olhos. Vou.

ESPREITA

ESPREITA

Ronie Von Martins





O cigarro já começava a esquentar seus dedos. Gostaria de se incendiar literalmente e acabar com aquilo de uma vez por todas. Esperar. Observar. Conhecer. Já estava cansado. Sua vida nada mais era que pedaços de tantas vidas que observara. Sempre à espreita. Sugando a vida alheia. Os detalhes, a sordidez, as pequenas alegrias, as dores. A traição. Todos traíam. De uma forma ou de outra a raça humana era traidora. E pagavam para ele observar e contar. Relatar os fatos.

Noite. Sentado ao volante do carro lançou a bagana do cigarro pela janela. O pequeno bólido incandescente traçou uma curva no ar e morreu no chão cuspindo algumas fagulhas do antigo brilho. Morte.

Todos queriam ter certeza. Interiormente já a tinham. Todos que o contratavam sabiam. Mas precisavam de provas. “Traga-me a certeza!” então ele saia para as noites. Farejando as humanas falhas, os deslizes, as fraquezas.

Encheu o copo da térmica de café. Bebeu um grande gole. Muito doce. Mas gostava. Gostava das coisas doces...

De dentro da escuridão e do silêncio da rua, o cachorro aproximou-se e urinou na roda do carro. Ele sorriu. Gostaria de ser um cachorro e urinar em alguém. Mostrar que não estava nem aí para nada, recusar um trabalho... mijar no pé de um idiota qualquer.

De súbito voltou suas atenções para a casa. Movimento. Levemente a porta abriu-se, uma sombra masculina parecia beijar um vulto que não saia à porta. Sem o acender das luzes ganhou a rua. Mãos no bolso, cabeça baixa.

Era ele sim. Já tinha fotos e gravações suficientes para comprovar. A mulher estava “frita”.

O marido viajando à negócios e ela ali, aproveitando a vida com o advogado da família.

Tentou sentir alguma coisa em relação ao fato. Nada. Raiva: o homem trabalhando e a vagabunda fazendo aquilo... Nada. Não conseguia sentir nada. O marido podia ser um crápula, podia bater na mulher, e esses escapes eram a única forma dela “viver”... Nada. Não conseguia se envolver mais. A vida dos outros começava a acabar para ele. Já não havia nenhum prazer.

Estava morrendo. Se vivia através dos pequenos estratos de vida dos outros, então agora estava morto.

Apanhou a foto da mulher de dentro de um envelope. Mulher bonita, uns trinta e sete anos, olhos tristes e boca sensual. Lembrou do rosto do marido. Homem sisudo e arrogante. Acostumado a mandar. Sobrancelhas espessas e sorriso debochado. Apanhou a foto do advogado. Rapaz jovem e alegre, um olhar que denotava algo de presunçoso... Levantou o rosto para o espelho do carro. Olhou-se. Nada.



No outro dia o marido recebeu um envelope. Um cheiro estranho exalava de dentro. Abriu o envelope enojado e sufocado pelo cheiro. Puxou de dentro algumas fotos e documentos avariados, todos manchados e molhados. Nada podia ser lido ou visto. “Mas o que é isto?” Pensou. Apanhou o telefone. Discou o número que sabia de cor. “O que é isso?” “Nada.” Foi a resposta do outro lado da linha. “Estou saindo.”

“Seu filho da P...” O cheiro começava a empestear a sala. “Que cheiro horrível é esse?”

“Mijo.”

A VIDA SOBRE AS NÁDEGAS

" A vida sobre as nádegas - eu já o disse uma vez - é que é o verdadeiro pecado contra o espírito santo..."

(F.Nietzsche em ECCE HOMO)

NONADA

"- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore no quintal, no baixo do córrego. por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser - se viu -; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. mesmo que por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de cão: determinaram - era o demo. Povo pracóvio. Mataram."

(ROSA, Jão Guimarães. Grande Sertão: Veredas, p.1)

SATOLEP

"SE UM DIA RESTAR ALGUMA SENSAÇÃO QUE DESCREVA O PERÍODO DOS MEUS TRINTA ANOS, SERÁ ESTA: ESTAR EM MIM E EM MEU ENTORNO. EU VOLTAVA E ME VIA VOLTANDO."

"RAMIL,Vitor. Satolep.p.22"

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

CERRITO-RS: CHUVAS DE NOVEMBRO

HOMEM SENTADO

HOMEM SENTADO





RONIE VON MARTINS

Engolia todas as dores. E já se acostumara. Não havia dor que não estivesse acostumado a engolir. Todas. Friamente às engolia. As vezes mastigava-as. Lentamente. Tudo ao seu redor era lento. Denso. Tudo era denso. Densidades estratificantes que lhe cobriam, envolviam em camadas. Como uma cebola. Não comia cebolas.
Os movimentos eram raros, da cama ao assento frente a parede que não se abria em janela, mas que se fechava em parede. E mesmo assim, seus olhos paravam ali. No espaço que só o olho do homem sentado conseguia ver. Ver? Seria uma frincha? Existiria a possibilidade do olho buscar e se esgueirar pelos interstícios invisíveis e “impossíveis” da parede?
Comia dores e bebia chimarrão. Amargo e quente. E não escuta o rádio. Mas sempre ligava o aparelho. Uma estação além das vozes chiava dialetos singulares e vetustos. E seus olhos por breves instantes pareciam brilhar.
O tempo era impreciso, já não era possível determinar se era presa de kronos ou Aion, ou se decidira deixar o corpo para um e o resto para o outro. Mas parecia que já havia preenchido seu quinhão de real com várias toneladas de memória e delírio.
Pelo substantivo louco, era definido pela família. Nunca apareciam, mas pagavam uma funcionária para limpara o pequeno apartamento. Ela chegava, lépida, faceira, pequenas e infames piadinhas nos lábios, barriga volumosa e satisfeita, espantando fantasmas e poeira com seu espanador encantado.
Ele ordenava a sua máscara que forçasse um sorriso. Cordialidade. E o que saia era uma careta engraçada que fazia a mulher sorrir e dizer mais besteiras.
A funcionária era um vento. E soprava com força todo o silêncio e a solidão do espaço do homem, mas quando saia, a gravidade puxava-os para baixo. E ele realmente não sabia se gostava do agora ou do antes.
“O que estás vendo?” as vezes a mulher perguntava e ele respondia que via a cidade da memória. E ela ria. Aquecia mais água para a térmica, perguntava se ele não queria trocar a erva. “uma carteira de cigarro” ele dizia, mais que pedia. “Eles disseram que você não pode fumar” e ele sorria. E ela trazia a carteira e ele incendiava o lugar. O fósforo incandescente por segundos frente aos olhos e em seguida a fumaça se esvaindo e abraçando o ar em valsa erótica. Lascívia. “Eles se amam.” Ele dizia. “Quem?” perguntava a mulher. “A fumaça e o ar.” A gargalhada era dela, o silêncio dele. “Você é esquisito mesmo, hein?” “É.”, dizia o verbo pensando na conjunção “e”. Este era o problema. A finitude das coisas e de si mesmo começavam a lhe causar estranhamentos. Gostaria de se ligar a outra oração, acrescentar eternamente. O meio das coisas. O verbo ser. A palavra “é” definia, estagnava e prendia tudo que não deveria ser nas estruturas sedimentares do “é”. O ser.
Ria desta suposta unidade. E se esvaia em fumaça. E dissolvido em nevoa, qual vampiro, perdia-se inteiramente pelas frestas do seu corpo real e organizado.

HELLdebrando

HELLdebrando Pascoal

Ronie Von Martins


Filme de terror: O bandido pega a vítima e fura seus olhos, não podemos dizer a sensação que se estampa em seu rosto, está de costas para a câmera, em seguida – provavelmente sorrindo, prazer que provém das profundezas mais intensas do inferno liga a serra elétrica, os berros desesperados da vítima comungam com o barulho ensurdecedor da serra.

Primeiro os braços e pernas. O sangue tinge as letras do texto e dos jornais. Depois, para deleite de seu espírito doentio amputa o pênis do homem que é - agora – apenas um monte de carnes.

Mas a fera não está satisfeita. Sua fome de morte e sangue não está saciada. A fera precisa de mais... E apanhando um prego, crava-o à marteladas na testa da pobre criatura.

Seria um filme banal, desses que Hollywood adora produzir, cheio de sangue e gente gritando, e que alguns assistem com a boca cheia de pipoca...

O Massacre da Serra elétrica, realização: Hildebrando Pascoal. Gênero? A mais pura realidade brasileira.
Ex-deputado, esse “senhor” está sendo julgado no Acre pelo homicídio do mecânico “Baiano” Agilson Santos Firmino.

E aí nos perguntamos: O mal é real? Palpável? Acredito que sim. Figuras como Hildebrando são exatamente a personificação de tudo que não presta nesta vida. Estão aquém da vida, urubus que se alimentam das dores todas do mundo. Monstros existem sim. Demônios existem. Está comprovado e ponto final.

Comandante de um grupo de extermínio, traficante, já havia assassinado um soldado do corpo de bombeiros... os crimes conhecidos ... Ah, e ainda por cima o digníssimo parlamentar movia dinheiro ilegal usando laranjas para burlar o sistema financeiro nacional.

Nosso “filme” de terror bota qualquer produção Hollywoodiana no bolso. E isso é uma vergonha.

Mão na bola

Cada vez me convenço mais que a realidade é virtualidade, e que tudo é maleável de acordo com os interesses do poder. A justiça não passa de uma argumentação. A vergonha acaba se diluindo nos discursos técnicos e a coisa “descamba”, “escorre” longe dos nossos olhos, ou como recentemente vimos; bem diante deles.
Não sei nada de esporte, e peço que perdoem minha intromissão neste nicho particular dos comentaristas esportivos; mas diante de tamanho absurdo não dá pra ficar calado.
Depois do que o Thierry Henry fez contra a Irlanda, perdi todas as esperanças no ser humano. Não. Não tem jeito mesmo. Como vou explicar pra minha filha de nove anos que eu “posso roubar se o juiz não ver”?
Cria-se então uma condicionalidade legal para a “maracutaia”, podemos roubar enquanto a justiça não está atenta - Então estamos “ralados”...dizem por aí que a justiça é cega – e tudo está normal. O que não pode é o juiz ver. O mundo pode enxergar tudo... mas se o juiz não vê... então tá “limpo.”
Deve ser por isso que essa “mão na bola” se instituiu discurso nacional. Enquanto o juiz olha pro outro lado, “dá-lhe mão na bola!”
O noticiário especializado está dizendo que o referido jogador de futebol, atacante da seleção francesa vem anunciando que depois da mão na bola irá se afastar da seleção... essas coisas... Aqui acontece disso também... roubam, roubam e depois “dão um tempo fora da política”, descansar em alguns país tropical... dinheiro não falta, e depois, quando a poeira baixar voltar e se reeleger novamente. E dá-lhe mão na bola.
Recentemente tivemos o “prazer” de assistir pelos telejornais do país outras partidas interessantes desse novo esporte; era mão na bola que não acabava mais. Boladas de dinheiro, que enfiavam pelos bolsos, meias, cuecas... e vamos parar por aqui.
Alguns até rezavam, como os jogadores fazem antes de entrar em “jogo”... Aqueles já tinham o jogo ganho.
Nada é real. Tudo é reflexo, tudo é teatro.
O trágico teatro da vida, onde infelizmente só alguns recebem os aplausos... e o pior, a grande maioria, sem saber aplaude os que zombam de sua ingenuidade.
E o que digo pra minha filha de nove anos? Pode roubar se o juiz não estiver olhando? Prefiro dizer que tudo é ficção: “Não dá bola Luzia, isso é tudo ficção, é como um filme, foi o diretor que mandou.”
Ela me olha com grandes olhos zombeteiros... ela sabe, todo o mundo sabe, menos o juiz.
Fim de jogo... roubou...tá roubado...
...sem chance de marcar outro jogo.


Ronie Von Rosa Martins

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O VERBO SUPRIMIDO

O VERBO SUPRIMIDO



Foi em um dia normal. Qualquer dia de normalidade próxima ao abismo. Mas normal. Todo o dia é dia. E ponto. E acabou. O dia. No ponto. Exato ponto onde já não é mais dia... então ele parou. Opção pensada. Doença cruel e irremediável. Loucura advinda de genes moralmente abalados de um passado obscuro.
Obscuro era o motivo, a razão da ausência do verbo na boca de Ermiliano Girondino.
O silêncio, tal como demônio que possui corpo abandonado de alma, dominara todos os ecos e vibrações sonoras do corpo de Ermiliano. A língua estava morta. Já não havia sibilações, vibrações... como o demo, o som havia sido excomungado para infernos outros. As cordas já não vibravam nem tiniam.

E assim Ermiliano, vulgo seu Liano, continuava sua vida, agora balizada por um silêncio que era seu, mas que por onde passasse mais silêncio assim somava o dele e o do outro e o daquele que ao não ouvir a voz alheia, cansado de a sua ouvir calava o som exterior e falava no cérebro, pra dentro da cabeça e a voz dormia na língua que já não batia.

Na rua, cumprimentava o povo com os olhos grandes e castanhos, e a intensidade e nuances determinava o humor de seu corpo e espírito.

A mulher, ainda longe da velhice, mas já bem distante da mocidade, nos primeiros tempos chorava e implorava para que ele falasse. Ele sorria. Mexia a cabeça afirmativamente ou negativamente. Afagava carinhosamente o rosto da esposa e dormia sorrindo.

No seu silêncio ela foi. Com a filha e o filho. Taxia na porta. Malas e maletas. Desilusão e lágrima. Ainda na cama Ermiliano dormia. E no seu sono ela ia embora. A família emudecera. Já não havia mais.

Então resolveu que o escritório não era adequado para o seu silêncio. Deitou na cama e fez a grande recusa. Desligou o rádio. A televisão.

Um dia, percebido na ausência que permitira a sua percepção, recebeu a visita de um colega de trabalho.
O outro falou. Falou. Argumentou de todas as formas e maneiras que pôde. Nada conseguiu. No telefone chamou outro amigo, e outro. Em seguida uma emissora de TV local estava no local. Todos falavam. Todos perguntavam. O verbo se enroscava entre as línguas ferinas, libidinosas. O verbo lambia o silêncio de forma imoral. O verbo possuía. Estuprava, violentava. Poluía. Ar, rio, matas e cérebros. O verbo se inscrevia nas árvores e as apodrecia, infiltrava-se nas intenções e tudo deturpava ao seu interesse.

Preso e de olhos esbugalhados diante daquele circo de horrores, Ermiliano pensava em chorar. Pensava em morte, suicídio. Seus olhos tentavam através de códigos vários, nuances infindáveis se comunicar com os outros. Mas ninguém ouvia os olhos de Ermiliano, ouviam só o que diziam. Comiam suas próprias palavras. Alimentavam-se da própria carne.

Fotos. Muitas fotos retratavam Ermiliano. A imagem. A imagem e o verbo infernal. Ambos em prol da representação de Ermiliano Girondino.

Já não era ele. Seu Liano que estava ali. Mas sua representação. Resumido em pequenos textos, consumido em artigos pessimamente elaborados. Retorcido através de uma ótica doentia e perversa. Difamado em letras simplórias que construíam um Ermiliano bufão e engraçado. Um bobo? O verbo recortava o perfil. Definia o psicológico. A imagem, correndo atrás, focava o olho excludente de sua visão parcial nos objetos que poderiam significar algo além do que significavam.

A mulher foi encontrada para dar entrevista, ficara famosa. “A mulher do homem sem voz. A mulher do homem mudo. A mulher do sem voz. A mulher do silêncio.” E agora já não chorava. Falava. Possuída pelo verbo. Proferia frente às câmaras fotográficas e aos gravadores sua triste história junta ao marido.

Rejuvenescera. Comprara roupas novas. De alma vendida. Como prêmio recebera as benesses da mídia. Dinheiro casa e alguns contratos.

Sem o mérito da defesa e ausente de voz verbal, Seu Liano foi colocado em um manicômio. Louco.

No primeiro dia tímido, mas já no segundo começou a grande revolução. Coisa nunca antes vista. Falava com os olhos. E os outros entendiam. E tudo começou a silenciar. Vasto e grandioso. Denso e poderoso. O silêncio começou a tomar conta de todos e de tudo. E o verbo começou a ser esquecido. A palavra abolida.

O manicômio era como um grande “buraco negro” na rua, espaço da anti-matéria, e logo em seguida toda a rua começou a emudecer. As pessoas já não queriam falar. Já não havia interesse. O verbo doía, soava estranho em bocas que se contorciam e gargantas que se espremiam em guturais sentidos.

Passado alguns anos um grande silêncio tomara conta de tudo, e o discurso agora era do silêncio. Os gestos eram mais bem entendidos, as expressões faciais estudadas e interpretadas, tratados sobre as nuances e significados do brilho dos olhos eram escritos.
As proximidades eram mais pretendidas que as distâncias. Então os manicômios perderam sua importância e Ermiliano voltou para casa.

Foi em um dia normal. Qualquer dia de normalidade próxima ao abismo. Mas normal. Todo o dia é dia. E ponto. E acabou. O dia. No ponto. Exato ponto onde já não é mais dia... então ele parou. Opção pensada. Doença cruel e irremediável. Loucura advinda de genes moralmente abalados de um passado obscuro. Obscuro era o motivo, a razão da presença do verbo na boca de Ermiliano Girondino.

Então falou.

Ronie Von Rosa Martins

domingo, 29 de novembro de 2009

PEDRO

Ronie Von Rosa Martins

Entre as mãos, pressionado pela estrutura física da carne, do osso que sustenta, mas também oprime por também ser obstáculo, peso, parede. Pulsava(?) prisioneiro do próprio corpo engendrado para si. O cérebro.
Nas mãos encharcadas, embebidas no suor das têmporas-nectar das dúvidas e angústias, ele sentia, percebia a aflição de seu intelecto comprimido...
Paredes... tudo eram paredes. Da carne ao tijolo. Tudo que prendia e resumia. Reduzia. Tudo eram paredes. Suas paredes.
Na escuridão circunstancial do não olhar, ele percebia os vultos negros das nuanças da própria sombra que o envolvia e invadia. Possuído pelo demônio da dependência, filho maldito do torpor... atrelado estava à rima simplória, mas vital, da batida cardíaca.
Talvez se abrisse os olhos e enfrentasse além do seu rosto/máscara de carne velha e dissimulada –sua essência, sentido/alma que de tão profunda jamais conhecera. Talvez na pele? Capacidade de se compreender?
Mas o cérebro. Abraçado ao frágil coração gritava-lhe do cárcere onde se encontrava que compreender a si mesmo era coisa de coragem, de desprendimento. E eles eram fracos, débeis na sua condição retórica. Voláteis.
E a umidade das mãos agora ficava mais amarga, pois o fel de sua alma deslisava silenciosamente por sua pele.
Quanto tempo fazia? Quarenta voltas os ponteiros indiferentes da morte já haviam dado ao redor de sua cabeça?
Sair. Levantar.
Tentava sem sucesso tais ordem ao prisioneiro conformado que se distanciava em uma valsa insensata de antigas e novas imagens-reais-ilusórias, de frases ditas e outras nunca mencionadas. Não havia resgate para o encarcerado que se implodia em incoerências. A razão é coerente?
Entre os dedos da mão escorria sua sanidade, fluindo para o esgoto/desgosto? Toda sua capacidade de percepção. Fronteiras ruíam.
E as dias mão que seguravam, agora chacavam-se débeis, delirantes. Surdo aplauso seco. Único. Ploft.
E ser já não era, agora, o que se fora outrora.
Então abriu os olhos. No aço do espelho seus olhos do outro o fitaram. De quem eram aqueles olhos cravados na sua carne. Aquela carne moldada em seu idêntico rosto?
De quem era o organismo tecido em seu espelho?
O que era aquele corpo que na realidade do espelho, na “verdade” do reflexo se escrevia, se inscrevia em seu texto. sem nome e em desalinho?
Na antítese que se instaurava se criara; e na mesma intensidade em que em volume, massa e peso se gerava, também pelo olho - no aço que o encarava – tão simples fácil se rendia. No leito estranho do desespero se permitia outro sono de falácias. Sonhos?
Do outro lado da porta. Sons.
Porta? Lado?
Espalmada a mão na parede fria. Realidade instaurada na solidez do prédio.
A mesma parede que esmaga também protege. O espelho sorriu. A carne ficou indiferente, intacta na ruptura interna da estrutura que se partia.
Qual porta estava fechada? a porta da lúcida madeira? Que se abria de súbito unindo dimensões fantásticas de todos os desatinos.
Estava nu. Desprovido dos panos. Encobrir as vergonhas. Nesta constatação eventual a carne se abriu em gargalhada infindável entre o espaço do aço do espelho e o reflexo da corpo. Carne entre o corpo de espelho e o reflexo do corpo.
Silêncio!
Sérios se olharam – decrépitos ambos.
No ar do olho que se encherga dentro do seu mesmo olho, cicatriza o distante; mesmo que no próximo olho que se vê diante, já se perca no profundo espaço do que já fora antes.
No piscar de ambos que se defrontam o que se alcança são só molduras...
Casado. Não está preso. Casado. Aliança no dedo. Dinheiro eroupa não.
Onde a sombra que se pretende homem? Na escuridão deste apodrecer?
Corpo ereto. Alto. Esguio, curvo. Respira a densidade negra que o emoldura. Pretende um grito. Forte, sacro/santo, mas e voz de onde?
Cadê palavras nessa boca murcha que se costura. Onde atitude nessa massa pálida que se constitui?
Onde a sintaxe da texitura deste verbo que não se estrutura. Dessa frase que não se coaduna. Cadê a palavra que neste deserto subserviente se abandona?
Noolho do teu olho no reflexo do teu despojo, no cérebro preso ao osso que o protege; congelas num segundo o tempo que te engendra; do materno exílio ao parto onde te encontras. Olho no olho no olho do teu próprio olho... Infindavelmente. Nesse espelho que não existe. Deste quarto que não desistes. Neste berro que ecoa.
A mão cansada que no movimento se afoga na densa massa que te engole – escuro – onde tudo se confunde. Vago fundo do teu quarto nu. A chave solta pende morta no fio que a conduz a luz.
E no passo que teu peso grita noutro espaço teu corpo afunda. No além da porta-luz.
Luz que te agride o corpo que reduz.
Pardais cinzentos em bandos te observam através do vidro da parede. No muro que individualiza, singulariza os espaços do mesmo. Delimitam os passos de cada um.
Abertos os vidros que iludem com as imagens das coisas. Respiras a terra.
Tudo é terra.
Vestindo as roupas, vestia também seu nome. Novamente recriado a personagem para o dia. Pedro. Pedra que se submete ao formão e ao martelo do escultor. Ao martelo.
A cada amanhecer recriava-se novamente a entidade Pedro. Vestido como Pedro. Pensando como Pedro, agindo como Pedro. Falando. Só lhe era permitido ser o não-pedro à noite e só. Quando despia-se do rótulo que o algemava ao ícone Pedro. Mas nem isso entendia.
Pedro Salinas. Pedra de sal. Desmanchava na singularidade coletiva de todos. Que também se resumiam.
Em um passo de tempo em que sua forma, imagem e sombra traça, mente, cérebro se afastam. Foge, mas em vão não encontra alma alguma. Corpo e carne e osso que sustenta o vulto já bastam, fartam... então parte.
Mesmo sendo pedra consegue ser mais ausência.
Massa de anti-matéria que perambula pelo universo. De qualquer folha o verso. Não o que canta a dor e a idolatra, mas sim as costas. O resto de qualquer escritura. Sepultura?

Findo o trabalho. Traz sua bunda magra e ossuda para o assento gasto da poltrona que lhe abraça. Engole e consome.
Click. E faz-se a luz. De volta.
O calo.
Não fala.
Nada diz.
Calado retira o sapato.
Na térmica ainda água.
O mate?
Morto. Todos os sonhos.
Sorve toda a amargura.
O calo lateja em sua profunda e singular sintonia.
Retira a meia. Entre o dedinho e o outro. Sem emoção. Com as unhas...
Arrancado, desmembrado o inimigo. Tinge o dedo o sangue, também o pé e o chão.
Vai chover?
Quanto mesmo? Quarenta?
Levanta-se.
É preciso fazer alguma coisa.

COISAS DE SUJEITOS

COISAS DE SUJEITOS
Ronie Von Martins


Querer ser verbo
enquanto se é única e puramente
Artigo...
De indefinida voz
nessa tessitura social
passional.

Onde se travestem de ação
todos os discursos
que não o são.

Onde reverberam
ocultas criaturas
Sujeitos
E sujeitos à interferência
Morfológica
Classificatória
Nomenclatória
Designativa.

Sujeitos e sujeitos
à ambigüidade
turva da opinião!
Sujeitos e sujeitos
à bifurcalidade
dessa língua serpêntica
que se arrasta na própria
incompetência de mais que réptil
Não poder ser.

E neste emaranhado
De inexistentes sujeitos
De indeterminados sujeitos
Sujeitos estamos todos
Aos pontos finalizantes
E às vírgulas segmentadoras.

ESPREITA

O cigarro já começava a esquentar seus dedos. Gostaria de se incendiar literalmente e acabar com aquilo de uma vez por todas. Esperar. Observar. Conhecer. Já estava cansado. Sua vida nada mais era que pedaços de tantas vidas que observara. Sempre à espreita. Sugando a vida alheia. Os detalhes, a sordidez, as pequenas alegrias, as dores. A traição. Todos traíam. De uma forma ou de outra a raça humana era traidora. E pagavam para ele observar e contar. Relatar os fatos.
Noite. Sentado ao volante do carro lançou a bagana do cigarro pela janela. O pequeno bólido incandescente traçou uma curva no ar e morreu no chão cuspindo algumas fagulhas do antigo brilho. Morte.
Todos queriam ter certeza. Interiormente já a tinham. Todos que o contratavam sabiam. Mas precisavam de provas. “Traga-me a certeza!” então ele saia para as noites. Farejando as humanas falhas, os deslizes, as fraquezas.
Encheu o copo da térmica de café. Bebeu um grande gole. Muito doce. Mas gostava. Gostava das coisas doces...
De dentro da escuridão e do silêncio da rua, o cachorro aproximou-se e urinou na roda do carro. Ele sorriu. Gostaria de ser um cachorro e urinar em alguém. Mostrar que não estava nem aí para nada, recusar um trabalho... mijar no pé de um idiota qualquer.
De súbito voltou suas atenções para a casa. Movimento. Levemente a porta abriu-se, uma sombra masculina parecia beijar um vulto que não saia à porta. Sem o acender das luzes ganhou a rua. Mãos no bolso, cabeça baixa.
Era ele sim. Já tinha fotos e gravações suficientes para comprovar. A mulher estava “frita”.
O marido viajando à negócios e ela ali, aproveitando a vida com o advogado da família.
Tentou sentir alguma coisa em relação ao fato. Nada. Raiva: o homem trabalhando e a vagabunda fazendo aquilo... Nada. Não conseguia sentir nada. O marido podia ser um crápula, podia bater na mulher, e esses escapes era a única forma dela “viver”... Nada. Não conseguia se envolver mais. A vida dos outros começava a acabar para ele. Já não havia nenhum prazer.
Estava morrendo. Se vivia através dos pequenos estratos de vida dos outros, então agora estava morto.
Apanhou a foto da mulher de dentro de um envelope. Mulher bonita, uns trinta e sete anos, olhos tristes e boca sensual. Lembrou do rosto do marido. Homem sisudo e arrogante. Acostumado a mandar. Sobrancelhas espessas e sorriso debochado. Apanhou a foto do advogado. Rapaz jovem e alegre, um olhar que denotava algo de presunçoso... Levantou o rosto para o espelho do carro. Olhou-se. Nada.

No outro dia o marido recebeu um envelope estranho. Um cheiro estranho exalava de dentro. Abriu o envelope enojado e sufocado pelo cheiro. Puxou de dentro algumas fotos e documentos avariados, todos manchados e molhados. Nada podia ser lido ou visto. “Mas o que é isto?” Pensou. Apanhou o telefone. Discou o número que sabia de cor. “O que é isso?” “Nada.” Foi a resposta do outro lado da linha. “Estou saindo.”
“Seu filho da P...” O cheiro começava a empestear a sala. “Que cheiro horrível é esse?”
“Mijo.”

Ronie Von Rosa Martins

MOBY

Abriu um olho-claridade, brilho, luz-piscou uma, duas-três, várias vezes ligou e desligou o mundo. O outro.
Aberta as janelas, fronteiras entre o sono e o despertar, talvez entre a morte e a vida, pensou... (ultimamente pensava demais.)
Precisava levantar- “levanta filho da puta, levanta vagabundo.” – ouvia os quase inaudíveis insultos que o cérebro – entidade funcionário público – gritava. O corpanzil velho gordo e suado lascivamente afundado qual Titanic ou Pequod em um mar de cobertas também velhas e também suadas.
Girou os olhos pelo quarto, como fazia sempre; examinava o local-cela-quarto-prisão... grades?
No chão entreaberto... Moby Dick – sonhara estar preso no mortal arpão de Ahab;
Baleia, Moby como era chamado – a baleia era branca; ele era a própria noite. ...o zunido... Sempre o zunido daquela miserável... Um dia a pegaria.
Barulho lá fora. Valia a pena sair? Na superfície o Pequod o espreitava. Sentia o seu suor, seu odor de negro fujão; de escravo. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”, quis cuspir no chão. Achou melhor não. Dane-se o Pessoa. Tão louco que seu duplo era dobrado. Louco de merda. “Pelo menos eu sei quem sou, sei o que faço: Eu sou........... faço.........”
Bobagens. A sombra do Pequod estava quase sobre ele. Piscou os olhos. Mergulhar mais fundo. O mar era seu território, seu universo.
A mulher gritava para que não esquecesse a chave... “A chave! A chave!” e ele em desespero se apalpava. Bolsos do casaco, da camisa, da calça... “A chave! A chave!” “Levante, levante” implorava o cérebro; mas o corpanzil sorria constrangido na sua incapacidade de produzir ação. “Desculpe... respondiam todos os músculos, todos os nervos-neurônios–veias tudo. Todo o organismo em sussurro, depois lamentos depois em berros gritavam-berravam-ganiam-gemiam-murmuravam.
Procurou pelo quarto – sempre o silêncio, abraço profundo; forte e sufocante como o da mãe “Não vá se sujar meu filho... não vá se sujar meu filho...” o perfume adocicado e enjoativo lhe invadindo as narinas e nauseando-o. A tentativa desesperada de fugir dos tentáculos maternos... “Não vá se sujar meu filho...”
Fuga!
Rua!
Corria livre o sorriso fácil riscado na face gordinha e rosada. “Brincar, brincar, brincar” lhe ordenava a alma infantil, e era a mesma alminha que se encolhia tal qual o corpo, assustado e humilhado quando os meninos da vizinhança o colocavam na roda e o chamavam de baleia, “Moby Dick!”, Moby Dick!”
Chorar?
Não. Quando o pai lhe encontrava chorando batia com violência no seu rosto “Home não chora bundão! Home não chora!” E ele, a baleia, engolia as golfadas de lágrimas em proporções desumanas.
Na escola era o centro das atenções; as meninas riam e chamavam-no de Bolo fofo, A baleia sempre fugindo das ameaças. Fundo mergulhava.
E o pai?
Ausência presente. Presente indiferença. Vazio. Poltrona vazia, garrafa vazia. Uma lembrança... Vaga lembrança...
A mãe?
O abraço tentacular tão indiferente quanto à indiferença paterna “não vá se sujar meu filho, não vá.....”
O arpão rasgando o mar. As lágrimas, as lembranças... Ahab. Vários Ahabs insanos em seu encalço.
Afundar...afundar. Cada vez mais afundar.
A mãe-perfume
Perfume-amante.
Chances de amor?
Sim, tivera a chance de ser normal. ( O que é ser normal?) Ela até que gostava do cetáceo, mas não tinha condições de suportar a pilhéria da marujada: “Não dá mais Moby, não dá mais.” “Por que fulana... por quê?
Por quê?
O coro da turba surgia em uníssono vociferando: “Gordo, Gordo!”
Nos ouvidos as mãos, tampões exatos na exatidão da dor.
Chorar?
Não, Moby jamais chorava – o pai não deixava – Moby só mergulhava. Sempre o mergulho. Fugia incessante do arpão, para o arpão...
Ar...
Pra que serve o ar se há a imensa e delirante dor; pra que ar se o arpão da infelicidade lhe atravessa as costas numa gargalhada horrenda.
A cama-mar- acamar- acalmar...
Dor!Dor!Dor!
Ardor e febre. Suor. O corpo se despede enorme. Abandono. Imensa nódoa escarlate que tinge a água e sufoca até Ahab.
Os olhos – longe a baleia, na superfície arrasta para o inferno o navio, a fúria e a intolerância.
Então chegaram calmos, quase sorriam – os carcereiros-enfermeiros-amigos-sombras-marujos...sonhos.
“O gordo foi pro saco.”
“É”
“Pois é.”
O cérebro ativa a última luz...
“Suicídio?”
“Desde que nasceu.” Sorriu o outro.
“É.”
Parados e abertos os olhos. A visão.
Ahab. Dentes arreganhados, toda a tripulação, todos os meninos, a mãe, o pai, a amante – o arpão.
O corpo. Corpanzil de graxa, baleia imensa negra-branco cetáceo. Morte.
Morte?
Sim, por que não, só mais um grande mergulho...
“Ta morto mesmo?”
“Não sei...”
O salto. O berro!
Joga-se! A gordura imensa o peso intenso sobre os olhos claros os olhos parvos, o pânico definido pela indefinível morte.
Sufocados-esmagados-triturados...
Apagada a fornalha fecha-se o livro os olhos fecham.
Mais um mergulho.
Encontrariam no outro dia dois enfermeiros esmagados pelo paciente do quarto 56.
A vida... e a morte também podem ser ridículas.
Não havia nenhum Ismael para escapar ao naufrágio.

Ronie Von Rosa Martins

O SOFÁ

Já não abraçava ninguém. Talvez o tempo. Sim. Com certeza o tempo agora lhe abraçava. Forte. Tão forte que sentia as estruturas do seu corpo fraquejar. Mas não reclamava. Sua resposta era sua insistência. Inquebrantável insistência. Resistir.
Nas espirais em que o tempo fazia suas memórias girarem, algumas lembranças se desgarravam e saltavam na parede. Imagens trans-temporais. Presente e passado, mesclados de forma indefinida.
Dos sonhos. Dos sonos confortáveis. Em que os corpos buscavam os aconchegos de seus sussurros mágicos, de suas cantigas irreais que levava-os para muito além do corpo. Era poderoso e venerado. E tinha seu império na parte mais nobre do reino. E seu poder era ilimitado.
Sobre as disputas de poder. Nos problemas mais graves, os corpos se jogavam para trás, afundavam-se no seu mundo. E com as palavras indizíveis, sussurrava respostas, propunha acordos, fazia rir. Era.
Braços fortes, suportava todos os pesos, todos os tamanhos, todas as alegrias e dores. E era mágico. Sim. Era mágico. Pois fazia as janelas abrirem ou fecharem, acendia quase sempre um portal vibrante e sonoro que hipnotizava todos. E sorria. Era ele.
Mas não há perenidade. Ilusão do eterno.
Primeiro, em decorrência de tratados políticos, condições econômicas e estéticas, fora obrigado, para sua própria segurança a habitar outros espaços. Não era de todo ruim. Agora recebia e tinha de dar palpites em relacionamentos juvenis. Aparar lágrimas infantes perdidas em delírios amorosos. Consolar a imaturidade e acalentar estranhos animais coloridos de pelúcia. Também de bom grado, recolhia todas as roupas e todos os livros. Montanha de coisas caóticas. Mas era forte. E sustentava ainda sorrindo todo o caos daquele estranho ambiente. Nas madrugadas, observando os corpos dormirem, abria sobre seu corpo algum livro ali deixado. Alice no país das maravilhas, o Pequeno Príncipe. Revistas de moda? Signo? Gibi. As vezes ainda ouvia, lá de onde aprendera a estar, os murmúrios do outro. Mais jovem e arrogante que agora dominava. E no sem palavras de seu diálogo, dizia para ser mais generoso menos orgulhoso. A juventude traz na força toda a sua consciência...
Então aconteceu. Enquanto os corpos se ausentavam. O portal luminoso, revoltado com sua subserviência, em ígneo discurso, ateou luz causticante ao lugar. E das distâncias da dor todos podiam assistir a consumação da matéria em brilho e calor intenso.
Quando tudo acabou. Só ele ainda resistia. Corpo ardido, pele em estado deplorável, chamuscado, sujo, mas vivo. Era mágico.
Vários corpos vieram e entre gritos, lágrimas e esforço. Água e suor... restou ele.
Todos foram.
Era a única casa da rua. Hoje é apenas um labirinto de paredes caídas e destruídas.
Porém ele é mágico. E para aqueles que acreditam em mágica e tiverem coragem suficiente. Entrem naquela rua, depois das dez horas da noite, nas pegadas do silêncio, andem até ele. E o verão, em pedaços sim, mas forte o suficiente para acalentar o sono do pequeno menino e seu cão pulguento. Aproximem-se e ouvirão no ar uma voz que é além da voz sussurar: “Era uma vez...”

Ronie Von Rosa Martins