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terça-feira, 1 de maio de 2012

A velha


Todo cão é um bicho. O homem. Bicho também. Pensou a velha. Sentada na cadeira. Rosto na janela. Moldura antiga. Vetusta imagem do tempo gravada. Nas rugas que percorriam todas as carnes que compunham o rosto da velha.  A televisão era a janela. Sempre a janela. E o fora do mundo. O seu.

A rua e sua oferta. Pobre a rua. Mas proposta. Que recusara há muito. A janela bastava. E os olhos iam longe. O que não viam criavam. Poderosos olhos de inventar verdades. Que seriam ou não.  Virtualidade latente. A semente e a árvore. A árvore em estado de vontade de ser.
Velha. Lhe chamavam carinhosamente. E sorria sempre. Dentes desgastados mas ainda presentes em sorriso espirituoso e distante. Os parentes eram memória. O marido ausência. A morte era uma coisa interessante. Pensava. No início magoava, doía. Depois afagava, acarinhava... não sabia se queria. Estava em dúvida.
Decisão difícil. Viajar para o distante... sorriu. A janela como moldura. Da rua os olhos outros sempre viam o mesmo quadro. Até a noite. No escuro. Não saia da janela. O sono não existia, parecia morte, e ela não tinha decidido.
E era com ela. Ninguém interferiria. Ela tinha o poder. Na aparente fragilidade,  uma força latente pulsava, e era nos olhos grandes e claros que se mostrava. Olhos de ver tudo. Olhos de devorar tudo. Nem a noite escondia dela seus segredos. E da janela ela via. Sem medo. Via as angústias de todos, os medos. Via os fantasmas e segredos que escapavam dos sonhos e dos tormentos noturnos. Também as fantasias e os terrores, desejos... e nem ruborizava, acostumada com as coisas humanas dos homens.
Criaturas estranhas

Palavras sopradas




Colocou os óculos. Imagem ampliada. Consciência? Sorria diante da folha virtual. O mundo era virtual. Mas era real também. Realidade em devir. E o sorriso era algo por aí. Misto de chegar e não. Coisa que não se decide em ironia ou dor.  Indecisão. Cisão. E começou.
Escrever. A música alta no pátio procurava caminhos outros. A atenção se esvaindo em nota e letras. Engenheiros. Engenharia. Tudo era engenharia. Pensou.
Concentração. Havia uma necessidade de desligar-se. Precisava articular o texto, a idéia. Articulação. Mas havia uma impossibilidade de determinar o assunto, o tema. Era sobre o escrever?
Era sobre o escrever? Sobre isso. A ação de engendrar letras, palavras, frases, idéias, textos? Era isso. Um sofrimento. Uma alegria.
O sol era um convite. Rua. Vida. Mas a página também era vida. Sua. E as letras também. Coisa de arrepiar. Nômade perambulando em vasto deserto. Erguendo acampamentos moventes em espaços de dimensões perturbadoras?
Sim. Era isso. Avizinhar-se desta condição. Nômade. O deserto era a folha. Lisa. Espaço liso. Criar um mundo. Mesmo que fosse fugaz . Mas um mundo. Não uma fuga. Não uma desculpa. Mas uma luta. Uma guerra. Sim. Tinha que ser isso.
Uma guerra silenciosa. Dobrar e desdobrar os sentidos todos, resistir nas e pelas letras, nas folhas. Brancas como Moby Dick. Assustadoras. Buscar o não-senso do comum. Questão ética. Estética. Algo do gênero.
Fome. Consumir. Então o chimarrão quente. Líquido. A liquidez das coisas. As cheias. Zigmunt. O arrastar. Derretimento. O mundo escorre. E o tempo corre. E corremos nele. Todos. Acabar. Destruir as estruturas da tradição? E depois? Mais estruturas novas e mais sólidas. Sentido? Filosofia pela manhã é mortal! No sábado. Deus! Sinal de problemas, delírio. Loucura?
Brinde então a Artaud. O ácool logo vem. Noite. E as letras se acalmam. E a folha dorme. Branca e ameaçadora. Ilusão... as palavras surgem como exército furioso, desordenado, cuspindo incoerências, mágoas, ironias... teorias alcoolizadas. Palavras-sopro.
Ousar enfrentar a adiposidade estrutural da língua com a agramaticalide do delírio. Então o fim. Com Bartleby "prefiro não".