quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Publicação - Homem sentado - Jornal Jovem

http://www.jornaljovem.com.br/edicao20/excecao.php Link para o meu texto "Homem sentado" no Jornal Jovem.

Oficina

Ronie Von R. Martins
Tenho em mãos, nada. Nem inspiração nem verbo. Vácuo. Tenho, no entanto, a oficina, o oficio. A folha e a letra. Tenho o risco o traço. E nada basta.

Então chuto, e bato. E quebro. E rasgo.

Mordo a palavra. Arranco todos seus sentidos próprios. Todos os impróprios. É minha a oficina de quebrar palavras.

O meu verbo dança com Artaud no precipício. Com Nietzche assassino todos os monumentos de pedra paternal. Pedaços. Espaços.

Escassos todas as verdades. Não há verdade nem caminhos.

Há, sim, um descascar-se por completo. Bartleby diante do muro cego, letra não dita, não-escrita. Ainda. Longe do sentido em que pisam os pés do comum consenso. Distante da linha que abriga os ecos e restos de qualquer tradição.

Na oficina me transmuto em letra. Em pedaço de letra. Em farelo de letra. Em uma não-letra. Aquela que virá com o povo que ainda há de vir. Devir. Letra-devir.

Letra de ouvir. Letra de comer com gosto e fome. Letra de embriagar, de embebedar a carne toda. Letra-sexo, letra-cântico de sereia nua. Crua. Letra em língua de louco que profere, desfere, em reunião pagã, vocábulos de mágica herança. Profundas rezas por veredas ainda não penetradas, perpetuadas, petrificadas pelo olho tolo do interpretador geral. O olho reto e correto do resumidor, do consumidor de arestas, nuanças, pontas, frestas.

- não ao emparelhador, ao pedreiro certeiro das paredes úmidas.

- não ao verbo disciplinador do poema funcionário público.

Em minha oficina. Em minha casa de louco. Em minha folha, em meu texto torto, quebro com marreta e fúria a palavra-pedra-dura. A palavra-pele-tua. E te exponho. E me exponho ao espelho cego.



Não entendes? Pretendes?

Uma idéia clara? Uma idéia morta.

Através da garrafa plástica

Ronie Von Rosa Martins


A garrafa pet de água gelada. A travessa de xícaras e o açucareiro. Possibilidades.

A mesa azul e as cadeiras estofadas ao redor. Ao redor todo o silêncio, toda a mordaça do argumento.

E os espaços que se fazem a cada passo dos corpos que se afastam nas proximidades perdidas.

A televisão que observa o mundo através de boca escura, dentes que devoram a imaginação e a imagem em sombra que lá fica. No fundo.

Escrivaninhas que põem suas línguas-gavetas em abusadas caretas de papel e desordem. Outras tão vazias que assustam.

As janelas e seus tapa-olhos coloridos e desbotados pelo sol que agora era a lua. E além da lua minhas palavras. Verbos em cantoria ritualística. Mantra de ausência e presença. Espaços de um devir.

Meu corpo que pela janela não vai, nem salta nem morre. Porém não vive nem grita.

Na perna a corrente funcional e o número. Público serviço a que me presto. Perco-me em tão inusitado estado de apatia. Corpo variante e vago pelo limbo.

Sujeitar o pé no traço de um caminho ido e gasto. Farto.

Parto que se faz diário.

A ordem das classes predispõe noções de antigos e tradicionais regimes. Lembranças do discurso e da palavra de ordem. Imposições dos corpos. Disposições dos corpos. Enfileiramento de memórias, de sonhos, de anseios. Fila. Filamento de imaginação que se tenta domesticar. Adestradores frustrados.

O grande fracasso refletido na xícara transparente. Os discursos são facas. Cortam os comportamentos, definem os pensares. Pensar?

A água já não está tão gelada. Nada mais é tão, ou muito. Tudo é mais ou menos. Tudo é médio. Medíocre.

Será possível se viver na e só na palavra? Minha esperança. Produzir meu suor e meu prazer na palavra. Desistir do corpo escravo. A palavra não é? Minha palavra não é escrava? Do meu corpo e do que o define e circunda?

Na garrafa a água me observa. Ela é o sujeito. Eu, apenas o objeto. Inversão. O corpo abre o espaço dos braços. A mão o dos dedos. E presa esta a garrafa. Já sem a tampa despejo a água.

Água que na terra descobre sempre as melhores brechas. Não há elemento que melhor saiba descobrir seus caminhos. Poucas barreiras. A água. Pelos interstícios das coisas sempre encontra seu corpo. Seus corpos. Ou cada gota já é um corpo? Sem órgãos.

Tampo novamente a garrafa. Prendo todas frustrações. E sobre a mesa observo. O silêncio. A transparência do meu nada. Estará meu espírito na garrafa? Gênio?

Garrafa de plástico.

Ruas (1)

Ronie Martins



Um carro. Mais. Outro carro. Tantos. Pessoas várias. Uma. Duas. Todas. Rua. Uma e muitas. Intersecção. Curvas. Becos. Olhos. Dois. Diversos. Um silêncio; não. O som. O barulho, o ruído. Burburinho. Passos, pássaros? Improvável. Tolerável o contato. Corpo. Corpos. Desvios, choques. Odores. Suores. Braços. Movimentos... segmentos.


Movimento e pausa. Continuidade. Continuação. O contínuo da ação. A palavra. Na boca. Na placa. No rádio. O discurso. A intenção. A sujeição. A imposição. O vidro e o cimento. Túmulo? Da donzela? Do conto das antigas fadas?


Vitrine. Desejo e consumação. Angústia. Inveja. Prazer e frustração. Cansaços em degrade. Desilusão em várias nuance. Velocidade. Objetivo.


Chegar. Ir e chegar... se der voltar...


Voltar da rua. Dos caminhos tantos que não são nossos e também o são.


O cão que perambula. O olfato atento. O homem, o flato nauseabundo. O odor do corpo e da rua. O corpo da rua e seu odor. A dor da rua e sua náusea. O cão.


Pela mão a menina. Preso o corpo. A imaginação flutuante. Devora vitrines. Brinquedos e roupas, doces e salgados. Sonhos. Os sonhos da rua devoram-nos. Todos.


Caminhar. Uma perna após a outra. Mover todas as instancias da carne. Produzir o movimento...


Ir...


Vir...


Na rua que se perde sob os pés e cabeças e corpos e odores e presentes e dívidas e sorrisos e tristezas o pássaro voa. Distante. Há silêncio nas alturas de sua rua?


Vastas e escassas carnes desfilam seus panos. Coloridos e estigmatizados com suas grifes. Estimativas de um valor hipotético. Virtual?


Ondulantes carnes se oferecem, outras agridem, afrontam, zombam. Outras, sentadas em propícios ambientes, devoram cadáveres alegremente e bebem água, refrigerantes, café, cerveja e cachaça. Sóbrios começam a caminhada, alguns corpos... ébrios e tontos chegam... ou nunca.


A rua é língua. Lascívia. Um olho que passa encontra outro e se encontram os corpos e se aproximam as vidas e se edificam histórias e memórias e famílias e lendas e mais corpos... para a rua.






Entro no ônibus e fecho os olhos. Vou.