"...quando precisa inventar novos conceitos para terras desconhecidas, caem os métodos e as morais, e pensar torna-se, como diz Foucault, um "ato arriscado", uma violência que se exerce primeiro sobre si mesmo." (DELEUZE,Gilles. Conversações.p.128)
terça-feira, 24 de julho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
A ceia: a palavra na mesa
A palavra. Forma estendida. Entendida e servida. Servida à fome. A palavra ceia. Para matar a fome. O rito. Ritual da mesa. Posta. Ao redor os corpos. Organização do corpo-mesa. E nela eles. Objetos da nossa fome. Da nossa fome de significar. Estratos do nosso estar na mesa. Estáticos. Calmos. Senhores do território. Da mesa posta. Dóceis. Todos. Já não há distinção. Somos todos. Eles. Os objetos. Nós os sujeitos. Só a relação. A força. O encontro. O agenciamento. Acontecimento.
Acontecer é criar. Representar já não é possível. Exaurido o antigo ritual. A sacralização do objeto. Da palavra que recobre o fato. E também o fato que identifica o objeto. A coisa.
Cartografar o movimento é necessário. O fluxo do passo que se perde a espreita do sangue, do grito, do objeto outro e mesmo. Os olhos buscam ou são buscados. Atentos aos corpos das coisas que vibram perigosamente. Forças. Passos da indecisão. A não-certeza é bem vinda. O delírio da imagem em excesso. Sufocação. Porre de cor,forma, utilidade, peso e medida. Imagem-prisão. Como a palavra que a sustenta. Em fila. Em cópias. Simulacros. A imagem morta na estante. Morta na indiferença dos corpos vários e tantos. Imagem-multidão. Corpo-massa. Todos em relação ao objeto. A imagem da força. Agora nova.
Há uma fome. Vontade de potência. Corpo sem órgãos. Ovo vibrante que não se permite delinear. Configurar. Resistência.
Há uma fome disforme. Dentes que buscam a própria mesa. Antropofagia do objeto. Duplo roubo. Na mesa. Resistir à mesa e sua circunstancia. Renegar a mesa e o território dado, posto. Pensar a não-mesa e o que dela não se pensa.
A ceia.
Na boca. Escorrendo inusitado a seiva de um outro objeto. De outra forma. Quebrando. O régio pensamento. O único entendimento. Pulverizando o uno na possibilidade do absurdo. Na intenção da perversão. Perverter o corpo da ceia. Perverter o sentir da ceia.
Dividir o doce bolo de nossos conceitos já prontos com serrote e força. A delicadeza do caos. Na boca. Sorver a doçura do deslocamento do absurdo. O do olho desconfiado. Do nojo que se identifica. E pensar esse nojo. Pensar o deslocamento. Desterritorializar. Na bacia onde lavamos a cara, o rosto, a pele, a carne. Na bacia grotesca comer o pão. Com a mão. Com espanto. Espantar a formação. A determinação. Renegar então essa rima pobre. Eco. Despir o ego. O sujeito. A identidade.
O objeto vibra. Na mesa. E em cada boca. Rega uma possibilidade. A ceia jardim. Jardim do absurdo que cria pensamento que pensa o pensar.
A mesa já não é limite. A mesa é fluída. Diluída na perversidade do deslocamento. É linha a mesa. De fuga. Mesa de comer devires. Mesa de se abandonar em fluxos. Mesa de comer-se. Mesa de devoração de “eus”.
Cada objeto é um “eu”. Cada palavra que o significa é um “eu”. E todos são prisão em sua forma determinada. Em sua utilidade definida.
Não mais. Agora o objeto é possibilidade. Agora é desconstrução. O objeto isento da mediação do nosso gosto, sentido. Intelecto.
Com Alice. Sentar à mesa do chá. Com Artaud cuspir no buraco o sangue e o corpo morto da significação. Com os Taraumaras dançar na borda do abismo. Mesa. Mesa abismo de sentidos. Mesa abismo da forma. Mesa-caos. Mesa-objeto sem órgãos.
O objeto livre da palavra. A utilidade posta em jogo. Inutilizar o estático do pensamento. Da imagem.
Mesa garganta. Mesa da devoração de nossas certezas congeladas.
BON APPETIT...
terça-feira, 1 de maio de 2012
NA CARNE
E não era ninguém quando morri. Apenas o
espaço vazio da porta e a dor na barriga. E já os olhos me iam com imagens de
indefinição.
Um rosto estranho. Pálido. E um estampido
a me arder a carne. Segundos. E só eram os pés dele que via.
Sapatos de brilho singular. Minha cara de
espanto, distorcida no verniz dos pés dele. Meu olho que se alarmava à
proximidade do cano que descia até minha testa. E então o nada.
Mas por segundos...
Ele não sabe. Nem imagina. Mas estou nele.
No seu passo firme e convencido. Agarrado em sua carne. Mesmo que quisesse não
conseguiria.
Ele é saboroso em sua maldade
incondicional. Alimento pra minha fome etérea e eterna.
Exala confiança enquanto pelas brechas e
poros da sua carne, invado sua sanidade.
Acha que não sente nada. Pensa que me
esquecerá em segundos.
Mas meus dentes devoram seu cérebro e suas memórias.
Acredita que no bar, encoberto pela fumaça
e álcool se livrará do meu corpo a
mastigar-lhe.
Belo em sua boca o álcool que escorre.
Etílico elemento. Vejo seu coração. Pulsando... pulsando.
Um carro estaciona e somos levados. O
homem gordo cara fechada pergunta “deu tudo certo?” “Sim.” É a resposta. Então
um envelope é trocado de mão. Dinheiro que recende a sexo e drogas. Os bolsos
estão cheios. O carro nos larga e a algumas quadras meu assassino entra no
ônibus e senta para morrer.
Não há inferno nem demônio. Há apenas a
fome. Todos têm fome. Tudo tem fome.
A humanidade é um termo... conceito muito
limitado. Dirão que não sou humano. Que sou um demônio. Não sei. Sei apenas que
este coração tem o gosto de toda minha fome. Todo o meu desejo.
Provavelmente ele sentirá dor. Abrirá a
boca em grito mudo, mãos no peito. Falta de ar... O corpo debatendo-se no chão.
Na minha boca, escorrendo, o suco amargo e
delicioso de todas as mortes.
PERIGO
O sol estava como se não
estivesse. Sombrio o dia. Espaços delimitados de calor e luz. Fracos. Débeis. A
cor era o cinza. Assim como o espírito. Cinza.
E caminhava por aqueles dias
mortos. Passos arrastados. Olhos cinzas. Quarenta e sete anos cinzas. A
tentativa do sorriso foi um fiasco. Não sabia rir. Nem mesmo com sarcasmo. O
sorriso fora impugnado, interditado. Definitivamente não sorria. Caminhava. A
barba espessa sufocando. Vegetação selvagem. O animal ressurgindo. A razão
indo. Só a sobrevivência. O comer de cada dia. O respirar. O peso do lixo.
Caixas e caixas de papelão. Montanha arrastada pelas ruas da cidade. Tartaruga
humana. Dores que se ramificavam por todo o corpo. Músculos. Mãos calosas.
Homem-cavalo, cavalo-homem. Arrastava e era arrastado pelas ruas. Baleia e
Lambaria eram os amigos. Cães. Os humanos não. Não gostava dos humanos. Eram
maus. Todos. Os cães não. Esses eram amigos. Baleia veio do livro. Do texto
encontrado no lixo. De um tal de Fabiano de um tal de Graciliano. Sempre lia os
livros que encontrava. Livros em pedaços, molhados. Novos também. Muitos. Não
entendia muito. Mas gostava. Não era burro. Sabia ler. E ali encontrou a
Baleia. Lambari veio depois. Ambos pretos. Baleia grande e brava, Lambari pequeno
e barulhento. Baleia no chão, ao lado. Quieta. Lambari na carroça. Preguiçoso.
Provocador. Ele gostava.
Divida a comida encontrada. Comia
pouco. Na verdade nem tinha fome. Comia por uma necessidade do corpo, de um
roncar de estômago que lhe avisa. Nômade. Decidira que não moraria jamais em
uma casa. E morava na rua. Encostava a carroça em um beco. Fazia uma pequeno
fogo. Cozinhava o que podia em uma panela que trazia amarrada na carroça e
pronto. Mas antes tinha. Tinha uma casa sim. Pequena. Mas era dele. E tinha uma
mulher. Dona Enilda. Um dia Enilda disse que era pra ele ir embora que não lhe
tinha mais amor. Ele argumentou que talvez fosse melhor ficarem juntos. As
coisas estavam difíceis. E então ela disse que tinha outro. Que ele ia morar
com ela. Que ela queria. E como tinha um guri que ficaria com ela, nada mais
justo que ele fosse embora. Nem chorou. Nem se desesperou. Quando foi embora
arrastando a carroça vazia, ela fechou a porta. Tinha acabado tudo. Tudo.
Morava num bairro onde a pobreza e a promiscuidade eram o chão onde todos
pisavam. O papelão vendia. Para O João Maneta. Homem baixo e gordo. Desdentado.
O Maneta comprava tudo. Gostava dele. Dava conselho. Emprestava uns trocados.
Atirava uns pãos pra Baleia e pro Lambari. Ele gostava.
Mas não dormia no centro. Nunca.
Gente má. Gurizada do diabo. Conhecia uns que tinham sido queimados. Outros
espancados. A policia ria. Fazia cara de preocupação quando os jornalistas
chegavam. Mas riam muito e faziam piada quando iam embora. Não. Ele saia da
cidade. Do centro. A partir das cinco horas da tarde ele começava a sair. Só
parava quando o lugar era mais calmo. Tranqüilo. Descampado. Preferia os bichos. Cobra, aranha, escorpião.
Tubo bicho melhor que o homem.
Foi em uma destas vez que
encontrou ele. Braços abertos. Boca aberta. Peito aberto. De bala grande.
Buracão no corpo. Morte. Bem vestido. Cheiro de gente importante. Primeiro foi
o susto do corpo em braços de abraço de morte que pretendia dar. Recuou. Pensou
em correr. Baleia e Lambari cheiravam. Farejavam. “Sai, sai.” Ralhara com os
amigos. Em pés curtos de relutação, aproximou-se do morto. Carteira. Dinheiro.
Relógio. Nada. Não tinha nada. Era como se o enorme buraco no peito tivesse
consumido tudo. Resolveu afastar. Separar seu corpo morto daquele outro. Mas
Lambari entrou em um pequeno matagal. Farejando. Logo Baleia sumiu atrás. Ele
resolveu ir junto. E foi então que encontrou. Guardou no meio de um papelão que
dizia perigo. Amarrou com barbante e guardou bem no fundo na carroça. E tremeu.
E fugiu. Medo. Do morto e da polícia. Da polícia e de quem matara o outro. O
morto.
A vida era estranha. E disso ele
sabia. A sua nem vida era. Espécie de resistência. Permanência. Impertinência.
Mas e daí. Não se lamuriava. Era mais um bicho que gente. E sabia disso. E
gostava.
Quando a lua
abriu o olho e o viu lá embaixo. Baleia e Lambari correram. correram muito. Na
frente. Ele parou. Medo? Dobraram uma esquina e latiram. Latiram mais forte.
Baleia rosnou. Latiu. Ganiu. Lambari alucinado latia. Ele agarrou firme os
braços da charrete e puxou com força todo o seu precioso lixo. Parou. Estancou.
Baleia estava estirada no chão. Lambari furioso latia para três homens. Uma
mulher estava caída. Atrás dos homens. “Vai andando mendigo!” gritou uma voz que veio de um rosto que não
se via. Baleia gemia.
A mulher
gemia. “Vai indo ou a gente te queima!” e riram. E foi neste momento que ele
pensou que realmente as coisas eram engraçadas. E que a vida é muito estranha.
Não estava nem com raiva, nem furioso. Mas ia fazer aquilo. Era como se tudo já
estivesse predestinado. “Sai fora imundo!” O brilho de uma faca cintilou. E o
que falava deu dois passos para frente. Foi ai que ele enfiou a mão no meio dos
papelões e pegou o pacote. Perigo. Rápido puxou o grande revólver. Negro e
poderoso. A bala foi cuspida com raiva. Diferente do que sentia. A arma tinha
seus próprios interesses. Seu próprio sentimento. E um grande buraco abriu-se
no peito do primeiro. Medo. Os outros dois tentaram fugir. O segundo tropeçou
na mulher. Caiu. Ao levantar-se recebeu o projétil na nuca. Sangue. O outro
tentou argumentar. Abanava as mãos. Fazia cara de coitado. Pensou em não matar.
Mas Baleia gemeu. A mulher. Encolhida. Gemeu. Puxou o gatilho. Apanhou a cadela
e a colocou da carroça. A mulher o olhava. Ele olhou fundo nos olhos da mulher.
Colocou a arma dentro do papelão, amarrou novamente e largou ao lado da mulher.
“Perigo”.
A velha
Todo cão é um bicho. O
homem. Bicho também. Pensou a velha. Sentada na cadeira. Rosto na janela.
Moldura antiga. Vetusta imagem do tempo gravada. Nas rugas que percorriam todas
as carnes que compunham o rosto da velha.
A televisão era a janela. Sempre a janela. E o fora do mundo. O seu.
A rua e sua oferta. Pobre
a rua. Mas proposta. Que recusara há muito. A janela bastava. E os olhos iam
longe. O que não viam criavam. Poderosos olhos de inventar verdades. Que seriam
ou não. Virtualidade latente. A semente
e a árvore. A árvore em estado de vontade de ser.
Velha. Lhe chamavam
carinhosamente. E sorria sempre. Dentes desgastados mas ainda presentes em
sorriso espirituoso e distante. Os parentes eram memória. O marido ausência. A
morte era uma coisa interessante. Pensava. No início magoava, doía. Depois
afagava, acarinhava... não sabia se queria. Estava em dúvida.
Decisão difícil. Viajar
para o distante... sorriu. A janela como moldura. Da rua os olhos outros sempre
viam o mesmo quadro. Até a noite. No escuro. Não saia da janela. O sono não
existia, parecia morte, e ela não tinha decidido.
E era com ela. Ninguém
interferiria. Ela tinha o poder. Na aparente fragilidade, uma força latente pulsava, e era nos olhos
grandes e claros que se mostrava. Olhos de ver tudo. Olhos de devorar tudo. Nem
a noite escondia dela seus segredos. E da janela ela via. Sem medo. Via as
angústias de todos, os medos. Via os fantasmas e segredos que escapavam dos
sonhos e dos tormentos noturnos. Também as fantasias e os terrores, desejos...
e nem ruborizava, acostumada com as coisas humanas dos homens.
Criaturas estranhas
Palavras sopradas
Colocou os óculos.
Imagem ampliada. Consciência? Sorria diante da folha virtual. O mundo era
virtual. Mas era real também. Realidade em devir. E o sorriso era algo por aí.
Misto de chegar e não. Coisa que não se decide em ironia ou dor. Indecisão. Cisão. E começou.
Escrever. A música alta
no pátio procurava caminhos outros. A atenção se esvaindo em nota e letras.
Engenheiros. Engenharia. Tudo era engenharia. Pensou.
Concentração. Havia uma
necessidade de desligar-se. Precisava articular o texto, a idéia. Articulação.
Mas havia uma impossibilidade de determinar o assunto, o tema. Era sobre o
escrever?
Era sobre o escrever?
Sobre isso. A ação de engendrar letras, palavras, frases, idéias, textos? Era
isso. Um sofrimento. Uma alegria.
O sol era um convite.
Rua. Vida. Mas a página também era vida. Sua. E as letras também. Coisa de
arrepiar. Nômade perambulando em vasto deserto. Erguendo acampamentos moventes
em espaços de dimensões perturbadoras?
Sim. Era isso.
Avizinhar-se desta condição. Nômade. O deserto era a folha. Lisa. Espaço liso.
Criar um mundo. Mesmo que fosse fugaz . Mas um mundo. Não uma fuga. Não uma
desculpa. Mas uma luta. Uma guerra. Sim. Tinha que ser isso.
Uma guerra silenciosa.
Dobrar e desdobrar os sentidos todos, resistir nas e pelas letras, nas folhas.
Brancas como Moby Dick. Assustadoras. Buscar o não-senso do comum. Questão
ética. Estética. Algo do gênero.
Fome. Consumir. Então o
chimarrão quente. Líquido. A liquidez das coisas. As cheias. Zigmunt. O
arrastar. Derretimento. O mundo escorre. E o tempo corre. E corremos nele.
Todos. Acabar. Destruir as estruturas da tradição? E depois? Mais estruturas
novas e mais sólidas. Sentido? Filosofia pela manhã é mortal! No sábado. Deus!
Sinal de problemas, delírio. Loucura?
Brinde então a Artaud.
O ácool logo vem. Noite. E as letras se acalmam. E a folha dorme. Branca e
ameaçadora. Ilusão... as palavras surgem como exército furioso, desordenado,
cuspindo incoerências, mágoas, ironias... teorias alcoolizadas. Palavras-sopro.
Ousar enfrentar a
adiposidade estrutural da língua com a agramaticalide do delírio. Então o fim.
Com Bartleby "prefiro não".
A bruxa
E ela levantaria os olhos para o céu. E a reza estaria neles
– claros grandes, brilhantes... esperançosos – antes das
palavras-resmundos-lamúrias que diria. Mãos vazias para o alto.
Dona Nandinha era uma bruxa. Pelo menos para mim. Guri que
fui. E que na sua presença aprendi o mundo que via, lia e dizia.
Mas era uma daquelas bruxas boa de abraçar. Na flacidez dos
anos e da pele fria. Estranha para mim. Guri de sete anos e com o calor todo do
corpo nas pernas que corriam ruas inteiras. Hoje memória e história.
Vizinha da minha mãe. Mais velha que todos. Antes do médico
era ela que corria para as casas-chá-efusões-xarope-rezas-beijos carinhosos nas
crianças-histórias fantásticas anteriores a qualquer memória.
Pequena. Gordinha. Cabelo crespo. Olhos redondos. Voz grave
e forte. Firmeza nas mãos e nas pequenas pernas que se recusavam a temer ou
respeitar a imposição do tempo.
Uns diziam curandeira, parteira outros. Rezadeira, mais
alguns. Mas de profissão costurava. Com linha construía. Edificava, reformulava
a vida de todos que a circundavam.
Remendava e reconstituía os pedaços de todos nós. Cortava o
que não prestava, cerzia nossas feridas, remendava com cores alegres nossas
dores.
Pela manhã. Cedo. Fazia o mate. Quente como o fogo e ligava
o pequeno rádio. Baixinho cochichava no ouvido da nossa bruxinha as novidades
do mundo e seus perigos. E ela levantava os braços e olhos para o céu e rezava.
Segurava com suas rezas o mundo todo e todo o seu peso. E era feliz.
E era forte a Dona Nandinha. A casa era repleta de bis quis,
vasos de flores e incensos. Retratos pelas paredes em molduras antigas. Guardanapo
bordado na mesa da cozinha e no tampo do fogão. A leitura
Tinha um gato que não era dela. Dizia. Mas comia e dormia na
casa. Godot era o nome. Ela lia. E fazia ler. Às vezes nos pegava na rua e nos
tomava a leitura: Moby Dick, As viagens de Gulliver, Sítio do Pica-Pau, contos
de fadas, as Mil e uma noites...
Na época era um suplício, mas lembro que depois – na rua –
nos gabávamos para os amigos: “Tive que ler dez páginas do livro tal... e o
outro retrucava cheio de segurança e superioridade: Pois faltam dez páginas
para eu ler o livro todo!”
Era uma bruxa sim. E vivíamos envoltos em magia.
Um dia Dona Nandinha morreu. Venderam a casa, os livros e o
gato fugiu. Fugiu para minha casa. Envelheceu lá. Eu com ele. Hoje é lembrança.
Memória mágica.
Ligo o rádio. Os olhos para o céu. Profundo céu de
possibilidades. Estou constrangido... mas levanto as mãos. Busco um pensamento
que se avizinhe de Deus. Faço uma reza resgatada dos confins da minha infância.
Sorrio. A vida é boa. Uma nuvem sorri para mim. Tem a cara
da Dona Nandinha.
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